Mens sana in corpore sano

Sinto, senti sempre, que esta coisa de ser alentejana não tem tanto a ver com o local onde se nasceu mas com uma forma muito particular de estar na vida. Esta forma particular reveste-se de muitas características mas de todas elas a que mais gosto de destacar é a típica bonacheirice :
bo·na·chei·rão
adjectivo e substantivo masculino
[Informal] Bondoso, sem malícia e paciente. = BONACHÃO, BONACHEIRO
Feminino: bonacheirona.
Palavras relacionadas:
“bonacheirona”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/bonacheirona [consultado em 25-02-2016].
Ora, é esta bondade e também a  paciência que nos leva a saber rir de nós próprios ( sempre desconfiei que ninguém sabe tantas anedotas de alentejanos como o próprio alentejano) mas também são elas que levam, muitas vezes, a confundir-se isso com fraqueza, lentidão ou simplicidade no sentido de pouca esperteza. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra. É simplesmente uma forma de se ver e se estar na vida. É mais do que claro que as migrações e as alterações do mundo, no último século, nos influenciaram também. A pureza das características é coisa do século passado. No entanto, esta paciência concorre, demasiadas vezes, contra nós. É ela que nos permite este deixa andar, esta permissividade que nos envia para a cauda do cometa. Somos os primeiros a desprezar o que nosso há de melhor, ou de bom. Os primeiros a atacar também. Falta-nos  a “idade dos porquês”. Se nos dizem que algo esta mal, em vez de refutar devíamos refletir sobre o assunto. Saber o porquê, ou, pelo menos, tentar saber. Exemplifico: Um alentejano escreve um livro, sobre o Alentejo, desprezando-o. Outros alentejanos diabolizam-no. No meio de tudo isto ( e não tendo lido o livro, apenas um excerto publicado no Observador. Vi também o vídeo no YouTube, da entrevista – triste – que dá na SIC Radical para se promover) o que achei mais interessante foi a reflexão ou a visibilidade que ele dá a um problema que, por mais que tentemos fechar os olhos, persiste em forma de endemia por aqui – o suicídio, as tentativas de suicídio, a depressão. Homens, mulheres, novos e velhos, tentam, conseguem e morrem e não ouve ainda ninguém que se perguntasse o porquê desses números? A crise é uma altura feia e triste, propícia a actos difíceis de explicar – veja-se o caso da mãe que matou as duas filhas, um exemplo claro de sofrimento psicológico atroz – que se tornam tão mais violentos e aterradores quanto menor for o apoio da comunidade e das instituições/organizações sociais, que deveriam existir para os diagnosticar, apoiar e vigiar, para evitar que aconteçam. Os números elevados de depressão e de suicídio, mesmo que na forma tentada, são uma realidade no Alentejo. Convivo com essa realidade há anos no hospital. O que é que acontece a essas pessoas? qual é o seu seguimento? quem as apoia? Que estruturas de saúde mental existem para evitar que as tentativas se repitam, quais são as características da população afectada, as suas estruturas sociais? Quem é que se preocupa com isto, que cruza as relações entre a saúde mental e a saúde física, percebe o problema, sabe como agir  e tenta de alguma forma perceber qual a verdadeira dimensão do problema? De tudo o que já vi e ouvi sobre o referido livro, foram só estas as reflexões que ele me suscitou. A saúde mental é uma das vertentes mais importantes nesse estado complexo que é o ser e sentir-se saudável, não é só o desequilíbrio total que deve ser encarado como patológico, o trabalho deve começar antes, muito antes, aliás como em todos os cuidados de saúde em geral.
“Mens sana in corpore sano”