Histórias de liberdade

Num tempo em que tanto se fala do Alentejo, ler a crónica do Vitor , trouxe-me à memória o meu Alentejo. Sou uma Alentejana atípica, também, uma suposta privilegiada, filha de funcionários públicos, mãe professora, tal como a do Vítor, que durante anos partilharam o mesmo piso da escola primária com salas de aula frente a frente, pai funcionário público, chefe de uma repartição de finanças. Também adoro a minha terra, foi ali que cresci e fiz amigos, característica de quem, bem ou mal, se conhece desde há muito tempo. As pessoas estão lá e são quase sempre as mesmas é inevitável não criar laços, alguns indissolúveis. Saí mais cedo, aos 15 anos, numa fuga para a liberdade. Irónico, que uma terra conectada com a liberdade tivesse sido sentida por mim durante tanto tempo como uma prisão. Talvez ainda o seja, um pouco. Super-protegida, sei exactamente o significado das palavras politicamente incorrecta! Guardo desde muito cedo as histórias contadas, os segredos, a incompreensão das coisas que não podiam ser ditas, nem feitas. Porquê? porque não! Porque não fica bem, porque há assuntos que não são para raparigas, lugares que não são para raparigas, coisas que as meninas não fazem, sobre as quais não se fala para não captar a atenção. Logo eu, que nasci com cromossomas extra para a igualdade e a justiça. Sempre tive a mania que gostava de ser rapaz, agora talvez já se perceba porquê. Tive à minha volta mulheres fortes. Mulheres que, tal como descreve o Henrique Raposo, desde muito cedo tiveram um instinto protector nato, uma força de carácter que lhes reconheço à distância e que tomei como exemplo, com a diferença que nunca perdi esta mania rebelde de dizer o que penso e se não digo, ficam-me a corroer as entranhas até à explosão total. Guardo com carinho a lembrança de uma antiga trabalhadora do meu avô, que foi rendeiro de uma  propriedade, que ao perceber o meu apelido, no hospital, me contou que o meu avô a tinha trazido de propósito ao médico, de carro (um luxo na altura), quando teve um acidente de trabalho, durante a ceifa. Lá estava a cicatriz enorme numa das mãos para o comprovar. Sei também que não eram todos assim, os patrões, e enchi-me de orgulho de a ouvir contar. As perseguições, as delações, a PIDE, os abusos de poder, tudo histórias que povoaram o meu imaginário de infância. E a agressividade latente, nos anos do pós 25 de Abril, que fazia de nós crianças, meras espectadoras sem noção e às vezes vitimas de pequenas vinganças e maledicência. O verão era o meu tempo de liberdade, livre da escola e da necessidade de ser um exemplo: corria descalça pelas dunas e pelos caminhos de areia, como se não houvesse amanhã, em praias que naquele tempo eram praticamente desertas, sem nadadores salvadores, às vezes sem ninguém, só os pescadores e o mar. Da adolescência guardo também na lembrança as sessões históricas de “porradaria” só porque sim, de um Alentejo litoral que agora já vai aprendendo a conviver. O papel da mulher, esse, ainda se mantém  num equilíbrio periclitante entre a decência e a liberdade de expressão, às vezes até a liberdade de pensamento. Como se diz e bem nesta crónica também da sábado, infelizmente (acrescento eu) a liberdade tem um preço. Há quem tenha pago um preço bem alto por ela .