9 anos de mãe a (des)dobrar (-se)

Foram 20 horas à tua espera. 20 longas horas, numa promessa que fiz ao nosso médico que nada impediria que, desta vez, fosse ele o primeiro a tocar-te, ele que cuidou o melhor que soube e pôde das minhas 3 gravidezes. E foi, apesar de pouco tempo antes lhe ter espetado o dedo em riste ( gesto comum em mim, quando começo a perder a paciência) : forceps nem pensar! Eu faço força, estou cansada, mas faço força. 
– Assim é melhor ser uma delas – numa tristeza de voz que ainda recordo – estão mais habituadas a partos normais. Valeu-nos a “teimosia” de uma colega que jamais irei esquecer, (aliás de todos eles que me acompanharam naquela noite tão longa – mais uma prova à minha resistência física) : Eu não saio daqui sem ver a carinha deste menino, estou aqui à 16 horas e não
saio sem ele estar cá fora! 
Nasceste às 8h em ponto, como que a garantir que sairiam a horas. O Realista em cima da minha barriga, eu a dar tudo por tudo num último esforço, a colega, de quem infelizmente não cheguei a saber o nome, a dar-te o ligeiro toque que era necessário para que o ombro se desprendesse e o Dr Vitor de mãos abertas à tua espera para te aparar. Saíste num instantinho depois de tantas horas à tua espera, como se tudo aquilo tivesse começado há apenas algumas horas atrás, chorando, como se quer. Mais uma vez chorei quando te ouvi. Só quem já teve um filho no silêncio sabe a alegria que é ouvir chorar uma criança que chega a este mundo.  
Ao longo destes 9 anos foram dois os sustos que me pregaste. O primeiro logo na primeira noite, habituada que estava a noites sem dormir. Durante 4 longos anos fui tentando supera-las com o teu irmão. Quando às 6 horas da manhã acordo e reparo que já era dia e tu sem dar sinal, entrei em pânico. Só me passou o pânico depois de confirmar que respiravas e tinhas pulso – dormias. Dormiste sempre. Longas noites de sono, que em nada podiam prever que, afinal , nasceste ligado à corrente eléctrica. 
Você tem aqui um campeão – disseram –  quando me deste o 2º grande susto. Bastes em média menos 30 vezes que eu durante um minuto, com apenas 9 anos. Raios! Uma criança de 8 anos não tem  56 bat.min. Ele não corre? não salta? É mole ou sonolento? perguntaram. Se tivesses mais energia, sugavas o pouco que me resta nos dias que estou mais cansada. Falas, brincas, pulas, consegues tomar atenção a 300 coisas ao mesmo tempo se te interessarem e andar num mundo só teu onde estará provavelmente alguma coisa a acontecer enquanto a vida acontece ao teu lado e te distrais. Depois dormes, noites inteiras, como desde a primeira noite. 
És o meu amor pequenino. Quando digo que não estou preparada, de cada vez que o teu irmão entra numa nova fase da vida, tu vens atrás e passas tudo de uma outra forma como que a comprovar que não há fórmulas mágicas nem receitas infalíveis. Ensinaste-me que não há limites para a energia mas que a minha resistência é limitada. Que a vida pode e deve ser mais do que o “rengue-rengue” diário, para te poder manter interessado em qualquer coisa. Que o desporto é mesmo uma coisa boa para quem nasce com apetência para o praticar e que o silêncio é bom, mas as palavras resolvem muito mais problemas. O que um cala o outro fala a dobrar. Dois filhos, vindos da mesma “fábrica”, podem ser o oposto um do outro e ainda assim serem amados com a mesma intensidade. Obrigado por teres transformado a minha maternidade numa coisa muito mais abrangente. Obrigado por me teres confirmado que afinal, tenho jeito para isto de ser mãe, e é de tudo o que mais gosto de fazer. Ainda que me esgote e que, constantemente, teste a minha resistência.  Vocês são a melhor parte da minha vida. Parabéns pelos teus nove aninhos. Tal como pretendes estás cada vez maior e hás-de ser um campeão, hás-de ser, com o meu apoio, aquilo que quiseres ser!