As tantas diferenças que existem num país de grandes cargas fiscais

Talvez seja a preocupação com o preenchimento do IRS, que me habituei a fazer sozinha há já alguns anos ( e que se simplificou bastante com esta história das facturas on -line – peço desculpa a quem não o ache mas eu, como “funcionária pública”, sinto que foi um dos poucos benefícios que me calharam neste novo paradigma) ou talvez seja apenas a forma de ver de quem reside fora das grandes metrópoles deste país. Nesta história da Uber/ Taxistas não posso deixar de estar do lado dos taxistas. Primeiro porque as marchas lentas que farão, irão prejudicar zero a minha vida ( e esta é a forma mais umbilical de ver o problema) e depois porque o muito que vejo escrito sobre estes profissionais, por estes dias, tanto nos blogs, como na imprensa e até na televisão – com grandes directos como se fosse um problema grave deste país –  mais parece um daqueles sketches do taxista que a Maria Rueff fazia aqui há alguns anos. Compreendo que nas grandes cidades haja de tudo um pouco e nesse aspecto, por vezes a concorrência é um forte incentivo à melhoria dos serviços. O que eu não consigo compreender é a concorrência desleal. Passo a explicar: Os taxistas que conheço não são pessoas com mau aspecto nem com viaturas que mais parecem saídas de um filme histórico. O táxi, por aqui, serve para fazer viagens de longa distância ou transportes de pessoas idosas com mercadorias e/ou crianças, substituindo a insuficiente oferta de transportes públicos. São os taxistas que muitas vezes transportam as crianças que vivem nas aldeias mais pequenas que, para virem à escola, são transportadas por estes profissionais, pagos pelas câmaras municipais. Para isso têm que ter ( e pagar) licenças especiais. São eles que tantas vezes transportam as pessoas mais idosas quando vêm às compras, ao hospital, aos serviços públicos, nomeadamente aos correios para receberem a mísera reforma. Enquanto enfermeira num hospital periférico assisti tantas vezes a pessoas com a profissão de taxistas que são as únicas formas de transporte ( cada vez mais difícil de obter) desde os montes mais remotos até ao hospital, ficando horas a fio à espera dos seus clientes, tantas e tantas vezes de taxímetro desligado porque não existe mais ninguém que os transporte. Sabem-lhe as doenças, a história clinica, a história de vida e ainda funcionam como o familiar que não existe. É caro o serviço? é sem dúvida, mas por aqui não existem grandes centrais de táxis, são trabalhadores por conta própria que trabalham tal como eu domingos e feriados pagando do próprio bolso a manutenção da viatura, as licenças, os impostos, e tudo o que por agora se inventa para servir de taxa. Não me admiro que se revoltem, sobretudo porque a concorrência que agora lhes aparece não necessita de licenças especiais, esquiva-se ao pagamento dos impostos e ainda é vista como um serviço moderno e inovador. Nestas condições de concorrência qualquer um é moderno e inovador. Reparem que não estou contra a Uber, que só consegui perceber o que era depois de um taxista me explicar, já que não percebia o porquê de tanta raiva. Depois foi fácil perceber: é quase a mesma coisa que ser funcionária pública, licenciada, ganhar abaixo do preço tabelado para um licenciado do estado, ser mãe solteira com dois filhos a cargo e virem-me dizer que não tenho direito a abono de família, enquanto outros trabalhadores por conta própria declaram o ordenado mínimo, tem receitas muito superiores ao que declaram e ainda conseguem benefícios socias. É a pirâmide da lógica, virada do avesso. É a grande diferença entre o país real e as duas grandes metrópoles do país. É ter que ouvir todos os dias de manhã na rádio o trânsito  na ponte da Arrábida e pensar que na Arrábida o que fazia sentido era uma ponte sobre o rio Sado, que diminuiria em muito a distância daqui até à cidade grande mais próxima e o preço da viagem, desde que a travessia fluvial do Sado se transformou num transporte de luxo, ou então, é só uma forma menos centralizadora de olhar para o país que temos…
 
Concorrência sim, mas com igualdade de circunstâncias e de carga fiscal! Taxistas, estou convosco!