The sound of silence

Hoje é isto

Ouvi-os, pela primeira vez na rádio comercial e foi amor à primeira nota. Já gostava da versão original mas esta é toda ela, eu. A voz deste homem entra-me directamente no coração e lembra-me o que fui, que fez de mim o que sou hoje. Como os meus gostos podem passar de um extremo ao outro num abrir e fechar de olhos e isso não significar inconstância mas sim mente aberta a tudo o que é novo ou diferente.

Nunca julguei ninguém pelas aparências e não me assusto facilmente com o aspecto físico. Detesto rótulos ou grupos estereotipados e navego bem em qualquer onda. Gosto de descobrir pontos comuns e sobretudo gosto de saber o que é que, e como pensam as pessoas para me conseguir colocar no lugar delas. Dou por mim sem querer a catalogar grupos não pelo aspecto mas pela forma como pensam o que no limite poderá ser também uma forma de estereotipar 

De todas as vezes que me cruzei com personagens só me lembro de me ter assustado uma vez: festival sudoeste, um dos primeiros ( só fui aos 3 primeiros mas acho que foi mesmo o primeiro) . Concerto dos blur, que ainda hoje adoro, mas uma noite demasiado pesada. A meio do concerto tudo turvo. Nestas alturas lembrava-me sempre dos conselhos da minha avó e das atitudes do meu pai em situações idênticas ( se não sabes o que fazer a seguir, finge que vais c….r e vai-te embora) quando se dá pela falta dele já ele lá não está. Disse a 2 pessoas para que soubessem onde estava e desapareci. Deitada fora da tenda, a olhar as estrelas, a tentar ouvir o concerto, à espera que o globo terrestre diminuísse as voltas que tinha decidido dar sobre si mesmo nessa noite, comecei a ouvir passos. Era enorme ou pelo menos assim me pareceu. Tatuagens e piercings eram mais do que estrelas no céu. Tive medo, pela primeira e senão a última não me lembro de outro susto assim. Sozinha, se gritasse ninguém me ouviria naquele lugar e com o som do palco. Enfrentei. Deixei-me estar, como se nada fosse. Aproximou-se e a voz desconstruiu por completo a figura: boa noite. Apontou o garrafão de água à porta da tenda e perguntou, dás -me água? Dou, mas tens que beber num copo que aí ninguém mete o gargalo. Riu-se, dei-lhe o copo e a água, repetiu, agradeceu e foi-se embora. Não voltei a ver a figura no dias restantes mas serviu-me de ensinamento. Por muito que seja corajosa há procedimentos de segurança que nunca se devem ignorar, um deles é nunca ficar sozinha num descampado onde ninguém te possa ajudar em caso de necessidade ( isto foi no tempo em que não haviam telemóveis, bem entendido) . Também serviu para a certeza de que o aspecto vale zero na consideração a qualquer pessoa.

Fora das histórias, esta voz mexe comigo, especialmente na parte final da música que demonstra a potência e claridez que também pode ter uma voz forte. Isso e o arranjo. Extraordinário!