A casa da praia no beco dos salgueiros

É a minha praia de sempre. Houve outras e ainda as há, mas esta faz parte de todas as partes de mim. Quando aqui chegámos ainda nem a estrada para a praia havia chegado. Eram caminhos de areia que fazíamos com a tralha às costas, armados de barracas para o dia inteiro, onde nos escondíamos do sol. Ainda os raios ultravioleta eram uma entidade desconhecida e já os meus pais nos obrigavam a abrigar-nos do sol nas horas de calor. Ainda bem que não havia ainda a moda das “besuntices” porque há certos hábitos de criança que nos ficam para a vida inteira. Tirando a idade da maluquice, em que qualquer hora era hora de praia, desculpa para estar com os amigos, não fiquei adepta da praia nas horas de calor e quando escolho praia para o dia inteiro fica a faltar-me sempre a barraquinha onde me possa esconder pela hora do calor. Contínuo a não ser adepta da “besuntice” mas os ossos do ofício obrigam-me a tomar certos cuidados, de tanta desgraça que tenho visto, e dou pelos meus filhos a terem o cuidado de colocar o creme antes de irmos para a praia, hábito que eu própria lhes incuti, mas que me esqueço muitas vezes de cumprir ( e é vê-la depois do banho a aplicar o creme na tentativa de cumprir as normas da boa saúde na praia) . Sinto-me aqui como me sinto em minha própria casa e desde que a temos, sinto-lhe a falta assim que começa o calor. É uma casa cheia de gente nova, sempre foi. Desde os tempos em que as amigas vinham passar uns dias connosco. Agora enche-se de rapazes e é assim que eu gosto. É assim que me faz sentido. Porque o verão é mesmo isso. Praia, amigos, tempo livre e histórias, muitas histórias para recordar.
A praia está diferente, quase sempre cheia e no roteiro das melhores praias do Alentejo. Deixou de ser o ponto de encontro das amizades, que Verão após Verão se encontravam para matar saudades. Já não se conhece quase todos os ocupantes das toalhas vizinhas, os sombreiros a fazer lembrar qualquer praia de postal retiram-lhe um pouco a personalidade mas trazem os turistas adeptos do postal que vende. Também já temos bolas de Berlim, como em qualquer praia Algarvia e embora a minha celulite não goste disso as papilas gustativas agradecem bastante a inovação. Depois há os bares de praia, o peixe a saber a fresco a olhar o mar e o areal a perder de vista. Mesmo que a praia esteja cheia, por aqui, se se quiser muito, anda-se um pouco mais e quando se dá por isso volta-se à mesma praia da minha infância onde éramos nós e o mar e os que vinham connosco. É isto que é praticamente impossível de replicar em qualquer outro lugar. É isso que faz destas praias únicas!