Is that a Nice thing ?

Suponho que quem viu ou leu sobre o terror em Nice em algum momento, hoje durante o dia, deve ter pensado: como é que alguém é capaz de fazer uma coisa destas?

Tenho tentado formar uma opinião ao longo do dia, sem ver imagens, que me choca a repetição constante do horror sofrido por muitos num momento de loucura de alguém.

O vulto ganha nome, Mohamed Bouhlel e nacionalidade: tunisino. Depois, em algum lado, consigo perceber que afinal é franco- tunisino, mas isso parece não ter nenhum interesse. Depois lembro-me do Dj, o tal que mandou os portugueses para as obras e lembro-me que era também franco qualquer coisa, mas isso também não interessa nada e considera-se o tal como Francês.

As vozes do terror armam o sr como braço do estado islâmico mesmo não tendo havido confirmação oficial por parte do tal “estado”. É este o estado das coisas, é este o estado a que chegámos. Quem gosta de história dirá, como me apetece a mim dizer que é apenas mais do mesmo.

Divorciado, pai de 3 filhos, conhecido por comportamentos agressivos. Onde nasceu pouco me importa. Importa lembrar que se comemorava a tomada da bastilha, um dos pontos altos da revolução francesa ( a tal que promovia a igualdade, a liberdade, a fraternidade) . A revolução francesa pôs termo a uma monarquia de mil anos, absolutista, levando à guilhotina o rei Luís XVI , incapaz de medidas importantes de renovação e remodelação da monarquia, que vivia em esplendor por trás dos portões dos palácios enquanto o povo morria à fome. Foram tempos difíceis o final do secXVIII início do séc. XIX. Não só em França mas por toda a europa, com esta a ser guiada por uma elite monárquica e religiosa enquanto, grosso modo, as pessoas morriam à fome. É claro que de Luís pouca gente se lembra mas toda a gente ouviu falar de Maria Antonieta a rainha e o seu esplendor mortas ambas na guilhotina.

A revolução francesa esse baluarte da democracia desta europa de hoje mas que levou a França direitinha para as mãos de ditadores e de Napoleão, que espalhou também ele o terror por toda  a Europa. É esta a história, voltas e voltas e voltamos ao mesmo, permitam-me concluir, por falta de humanidade.

Mohamed Bouhlel, franco-tunisino. Voltemos ao campeonato europeu e ao comportamento da seleção francesa, do selecionador, dos meios de comunicação em geral. Os portugueses, esses, uma nação feita de porteiras e pedreiros a ousar retirar das mãos das grandes nações um mísero caneco de prata mas que confere reconhecimento e mérito. Ingleses, alemães, franceses, incrédulos com a ousadia, não poupam palavras de humilhação. Quelle horror!

Mohamed Bouhlel, desempregado, nas franjas da sociedade a sofrer alterações na vida pessoal que provavelmente lhe exacerbaram a revolta pela qual já fora identificado através dos comportamentos, delitos menores, roubo, furto.

Os miseráveis é uma das grandes obras de Vítor Hugo, escritor francês e, salvo as diferenças próprias de um mundo que apesar de tudo melhorou muito as condições de vida, pergunto-me se não se adaptaria perfeitamente ao nosso tempo. Não são novos males e velhas nações, são velhos males em nações que teimam em não querer evoluir com o mundo ( perdoem-me a redundância: global) . O que define uma nação hoje em dia já não são as fronteiras, nem o genótipo ( cor da pele , dos olhos, etc) porque estamos já demasiado misturados para se definir um limite genético. O que define uma nação, hoje mais do que nunca, é a sua língua, linguagem, fonética.

Recupero a triste figura francesa, não só nos ataques à qualidade dos portugueses mas também na imitação reles do grito da Islândia e encontro uma nação que não se encontra, perdida que está em velhos mitos e a sofrer por isso uma revolução que é interna. Revejo a altivez Inglesa no seu Brexit e prevejo também algum desengano britânico quando perceber que as fronteiras abertas não são uma necessidade mas sim uma nova forma de estar no mundo. Vão ter que aprender isso sozinhos então. 

O que se passou em Nice foi uma tragédia. São sempre os inocentes a pagar pelos erros daqueles que por definição deviam ter os melhores valores, mas a história infelizmente diz-nos que o poder corrompe quando não é partilhado.

Recordo por fim a entrevista do nosso engenheiro do Euro, não no conteúdo mas na forma, para me ajudar a explicar a minha reflexão. Os gregos, tão ostracizados como nós nesta guerra aos incumprimentos, deram-nos aquilo que nos orgulhamos mais hoje em dia: a democracia – o poder do povo. Fernando Santos fez na sua entrevista uma coisa que muito poucos portugueses fazem: falou em português do princípio ao fim e não foi por não entender o que lhe diziam, foi por escolha. No fim da entrevista falou a um povo que admira e que muito o ajudou e a quem está grato. Falou aos gregos, em grego, não há sinal de maior respeito. Se alguém conseguir perceber a diferença entre o estar dos portugueses e o estar dos franceses então que veja.

Sim, o terror é culpa da Europa, quem quiser ver que veja e o melhor que podemos fazer para o combater é passar aos nossos filhos os melhores valores que nos passaram e fazer tudo por isso, mesmo com o resto do mundo contra nós.

Mohamed Bouhlel era franco tunisino e provavelmente não aceitou viver numa sociedade com dificuldade em aceita-lo.