Viver do que restou cá dentro

Queria escrever sobre o dia. 

Há dias em que as mágoas caminham connosco como se fossem sombras ao calor tórrido da planície de que não conseguimos vislumbrar o fim. Hoje sou restolho. Espero uma pequena morte interna para nascer de novo. Sinto falta de algo novo que volte a fazer -me sentir, vibrar. É esse o destino de quem procura novo destino? Destinada estou. Serei eu uma peça ímpar?Espero secretamente poder de novo abrir as asas e fechar os olhos no planar alucinado de quem sabe o que a espera. 

As esperas são as piores fases da vida. Aquelas em que a mornidão não nos aquece nem arrefece nem compromete. Caixas vazias de conteúdo, esperando encher-se com as tralhas da vida que se vai arrumando de qualquer maneira.

É um viver procurando não se sabe o quê. É ver no olhar dos outros o que não se encontra cá dentro. Estar perdida sem caminho num caminhar que não pára. É mais um dia, apenas mais um dia. Um fim de Agosto. Um fogo que ardeu. A espera das chuvas que leve as cinzas na esperança que haja ainda lugar para quem queira morar cá dentro.

O início de mais um ciclo

Oficialmente acaba hoje a feira. Sinceramente, ainda bem, é que, aqui só para nós que ninguém nos ouve, já não aguentava ser adolescente outra vez por muito mais tempo. Abençoadinha feira que é só uma vez por ano. Como diz a minha amiga Mónica R. agora é tempo de chás, detox, alinhamento dos chakras ( xícaras para os amigos), rezas, benzeduras e todas as mezinhas que nos possam pôr os exteriores e os interiores no seu devido lugar.Caramba que o meu sistema músculo- esquelético está todo fora do lugar, tenho falta de horas de sono e há pó por todo lado (até nas linhas das palmas das mãos) de tal forma entranhado que necessito lavar e enxaguar o corpo por dentro e por fora. Cá por casa estamos todos na mesma e até o carro está a precisar de detox que aquilo já é só fumos de escape. Amanhã já tem marcada a visita ao “médico” de eleição.Suspeito que vamos ter que mudar o combustível que esta história dos low cost, se calhar, não é tão barata como parece. 

Agora é tempo de parar, formular desejos, fazer planos para o novo ano, definir objectivos e começar a criar condições para se viver com o mínimo de qualidade durante um ano inteiro. Um detox do corpo e da Alma, um tempo de reflexões para as futuras construções. 

Até já. 

Ardem-nos as costas. O cheiro pestilento a fumo, o ar baço,pesado, que seca as mucosas. Choro lágrimas pelos olhos que sentem o ar pesado, que traz o sofrimento da vida que arde. Ardem-me também, os olhos. É dia de festa mas a noite está tristemente iluminada pelas chamas que escalam o território que deveria pertencer apenas às árvores. Chegam reforços, num esforço que fazem de se entre ajudar. Veio Santiago logo pelas  4 da tarde quando para lá caminhava. Chama-se trabalho. Trabalho de equipa, Chama-se cuidar do que é de todos. Hoje por mim, amanhã por ti. 

Senti um arrepio na espinha num obrigado de quem sente o seu chão a arder e agradece os reforços. São dias complicados os de feira, com operacionais escalados para o recinto, o serviço de ambulâncias que é obrigatório manter e ainda mais o chão que nos arde. 

Chegam mais reforços, vindos do distrito, da região. Ainda assim vai ardendo, tudo. Arde ainda quando volto, meia noite, o laranja fogo iluminando a serra. Penso na capela. Penso como é triste só imaginar tudo o que se está a perder pelas chamas. 

Sinto o fumo, o cheiro a mato, o cheiro a cinzas, o cheiro a perigo no ar. Está longe mas tão perto do que é meu, do que sou, de onde estão fixadas as raízes que me alimentam que peço religiosamente e pragmaticamente que salvem das chamas a serra que olha por nós. 

Foto do Luís Miguel bombeiro de Grândola ( desculpa Luís, não sei o teu último nome)

Foto do Gerardo Pratas – ambas as fotos foram “roubadas” do Facebook.

Grândola em festa 

…E começa a feira de Grândola. Sabendo que para os outros é apenas mais uma feira/festa, para nós, os “locals” é o evento que marca o ano. Lembro-me que, quando era miúda, os marcos do ano eram a feira e o Natal, ficando o meu aniversário muito aquém da alegria que sentia com a chegada da feira. Não sei se para todos os Grandolenses a feira marca o final/início de mais um ano tal como para mim mas marca com certeza o final do Verão e o ponto de encontro dos “filhos pródigos” espalhados por esse mundo fora e é isso também que faz da feira um momento tão especial para nós. Isso e  o facto de,nesta altura,passar por cá um estado de espírito qualquer que, de repente, nos torna a todos ligeiramente adolescentes e condescendentes com as loucuras alheias. 

Digo por graça que foi na feira que aprendi a conduzir, quando, com 12 anos o sr Adriano com a sua eterna juventude pegou nas ” gaiatas” mais novas e ” pespegou” com elas nos carros de choque ” dos grandes”. Não voltamos a fazer mais nada durante uns anos e as miúdas dos carros de choque passavam horas a conduzir num exercício de liberdade e sonho de gente grande. As luzes, a música, o barulho e a confusão fazem parte das lembranças ( o poder cantar aos gritos e o barulho ser tanto que ninguém ouvia) os saltos no Kanguru, até a minha magreza daquele tempo de juventude me fazer quase saltar da cadeira ( o susto foi tal que nunca mais voltei a andar) . 

Foi também na feira que comecei a apreciar concertos e foi aí que se iniciou o meu périplo que já leva muitos concertos no currículo, com as noites a acabar de manhã com o belo do pão com chouriço. 

Mais recentemente o cachorrão Grandolense faz as delícias do Afonso que ainda bem não acabou a digestão e já pede um cachorro que está ” cheio de fome”.

Para além de todas as memórias a feira é muito mais que isso. É uma mostra do nosso concelho, da cultura, do artesanato, da tradição e dos planos para o futuro. Comes e bebes, ris e sorris, cantas e encantas, num exercício de encontros e reencontros que faz destas uma das melhores alturas do ano, para mim. É por isso que quando os meus me pedem para ir à feira e passar horas nos carroceis, não tenho como dizer que não. Se eu também fui moça para o fazer.