O manuscrito 

Lembro a pedra no areal como se fosse um altar sagrado, só, em cima não havia nada. Lembro o manuscrito em forma de Alma que lava nas letras o calor que a água não pôde conter. Lembro o sinal luminoso, oferta desconhecida de quem aprendeu a ver por dentro o que os sinais não mostram. Lembro a tortura chinesa, pling,pling, qual gota a cair na testa e a queimar até à exaustão. Lembro o sorriso a rasgar uma face lavada e uns olhos que brilhavam muito para além da sua própria cor. E de facto não me lembro de nada, porque a memória encadeia sinais mas retira o sentido ao que não é sentido, ou ao que não se consegue sentir de tão distante que parece. 

Procurei a pedra, só, encontro areal sem fim, nenhum sintoma de altar . Ainda assim a lembrança do sorriso rasgado e dos olhos brilhantes persegue-me. Sinto-me feliz com essa lembrança. Sim, até na infelicidade, consegui, ser feliz na liberdade de escapar da melhor forma possível.