Crimes Lesa Pátria

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Incêndio na Madeira: Foto Lusa/Gregório Cunha ( retirado do site TVI 24 )

Compararam-no à tragédia de Pompeia, mas essa foi de causas naturais: O Vesúvio, que no seu grito de força destruíu uma das mais florescentes cidades do Império Romano. A mim, lembra-me Roma e imagino um Nero escondido na segurança do seu palácio, reconstruindo mentalmente a cidade, a seu bel prazer – uma das mais fáceis corrupções do poder: a mania da grandeza e a sede de imortalização pela obra.

Recordo o Funchal como uma cidade cheia de sol, com a baixa branca e cinzenta que hoje vi queimada e soube, agora sim, aquilo que se sente quando se vê: bolas, eu já estive ali! Nem foi isso o que mais me chocou. Esta imagem e a lembrança de uma terra que, por onde se olhe, existe mar. Tanta água! Como pode arder assim uma cidade tão bela?? Por onde foge aquela gente, quando, colina a baixo, vêm o fogo pegar no que é seu e à frente se estende apenas o mar? Pela primeira vez senti a claustrofobia que pode sentir quem vive numa ilha, sendo que quando lá estive achei que devia ser limitativo mas nunca perigoso. Ontem percebi que não e deitei-me com o coração pequeno. Que fazemos nós quando perdemos tudo? Recomeçamos. Mas que histórias de vida se escondem por trás da tragédia? Foi com eles, podia ser connosco.

Confesso que as últimas tragédias Madeirenses, acompanhadas de mais esta, me fazem pensar. Que preocupações se teve, com a construção desenfreada, de salvaguardar as catástrofes naturais?  Chama-se ordenamento do território e é muito importante. Não só para impedir que nasçam prédios e construções como se de cogumelos se tratassem, mas também para prevenir e permitir a permeabilidade do solo, evitar derrocadas, planear corredores desocupados e desflorestados que se possam usar em caso de emergência. Pensar nos auto tanques a subir aquelas encostas íngremes, divididos entre fogo florestal e fogo semi-urbano parece-me um grande problema de logística. Existirão meios humanos para lhe fazer face? Numa cidade e numa ilha que provavelmente duplica ou triplica a sua população nestas alturas do ano? Tantas questões, tão poucas respostas e tanto teatro à volta de uma tragédia humana, natural e patrimonial. Ardeu parte do centro histórico de uma importante cidade portuguesa, caramba ! Eu quero saber porquê!!!

O rapaz, 23 anos, o que o leva a ser pirómano?? (  do grego pyros [fogo] + mano [maníaco] ) quem os diagnostica? confirma-se o perfil psicológico? quem investiga os verdadeiros porquês das coisas? A área onde se iniciou o fogo, haveriam interesses especiais por trás? Eu sei, teorias da conspiração, no entanto é por fecharmos os olhos e encolhermos os ombros que tudo vai acontecendo neste país, sem ninguém querer saber o porquê – entretanto há pessoas que perdem tudo, até a própria vida. Vai longa esta minha reflexão, porque me choca a displicência e a leveza, até o populismo, com que se tratam assuntos que são de todos nós. É o nosso património que ali está, o nosso legado ao futuro. Não me sai da cabeça, com tanta água à volta, onde estão os meios aéreos que podendo levantar do Porto Santo, tal como o presidente, poderiam ajudar no controlo das chamas? Ou sou eu que estarei a ver mal?