Ardem-nos as costas. O cheiro pestilento a fumo, o ar baço,pesado, que seca as mucosas. Choro lágrimas pelos olhos que sentem o ar pesado, que traz o sofrimento da vida que arde. Ardem-me também, os olhos. É dia de festa mas a noite está tristemente iluminada pelas chamas que escalam o território que deveria pertencer apenas às árvores. Chegam reforços, num esforço que fazem de se entre ajudar. Veio Santiago logo pelas  4 da tarde quando para lá caminhava. Chama-se trabalho. Trabalho de equipa, Chama-se cuidar do que é de todos. Hoje por mim, amanhã por ti. 

Senti um arrepio na espinha num obrigado de quem sente o seu chão a arder e agradece os reforços. São dias complicados os de feira, com operacionais escalados para o recinto, o serviço de ambulâncias que é obrigatório manter e ainda mais o chão que nos arde. 

Chegam mais reforços, vindos do distrito, da região. Ainda assim vai ardendo, tudo. Arde ainda quando volto, meia noite, o laranja fogo iluminando a serra. Penso na capela. Penso como é triste só imaginar tudo o que se está a perder pelas chamas. 

Sinto o fumo, o cheiro a mato, o cheiro a cinzas, o cheiro a perigo no ar. Está longe mas tão perto do que é meu, do que sou, de onde estão fixadas as raízes que me alimentam que peço religiosamente e pragmaticamente que salvem das chamas a serra que olha por nós. 

Foto do Luís Miguel bombeiro de Grândola ( desculpa Luís, não sei o teu último nome)

Foto do Gerardo Pratas – ambas as fotos foram “roubadas” do Facebook.