Reflexos de vida 

A vida é mesmo assim, repleta de princípios e fins. Foi através do Facebook que soube a notícia e foi do Facebook, da página da câmara municipal de Grândola, que retirei a foto. 

Tive a sorte de cruzar o caminho com a D. Vitalina quando fiz serviço para o Montepio de Grândola. A D. Vitalina era minha visita habitual à segunda feira para medir a tensão, avaliar a glicemia e o colesterol e darmos, como sempre, dois ou três dedos de conversa. Foi assim que soube a idade daquela senhora que com 92 anos à altura, se não me engano, falava como se tivesse 72. Foi também assim que soube que era orgulhosamente aluna da Universidade Sénior de Grândola e da sua curiosidade em aprender a trabalhar com computadores. Foi assim também que durante algum tempo partilhei da sua experiência, da sua história e dos seus ensinamentos. Quando vulgarmente nós, os jovens, consideramos que aos 92 já não há nada para fazer, esta senhora continuava com projectos e vontade de aprender e saber mais. Maravilhoso, portanto, partilhar a sua vontade de viver. 

A vida é mesmo assim, cheia de voltas e reviravoltas. Saí do montepio quando quis voltar a estudar e não voltei a ver a D. Vitalina até à bem pouco tempo quando me pediram para fazer um transporte a Lisboa para a realização de um exame complementar de diagnóstico, que foi marcado e remarcado e que me impediu de desfrutar de uma noite de reencontro com amigos, da qual tive que fugir à pressa, para me puder apresentar às 6h no hospital para o transporte. A D. Vitalina, doente, aguardava a sua companhia e, com a forma de estar que a caractetizava, via o processo como forma de atingir um objetivo: as melhoras. Ainda tivemos tempo para rir as duas, quando lhe perguntei se já conhecia o hospital para onde rumavamos ao que me respondeu que o conhecia há 40 anos o que me fez sentir ligeiramente ridícula. Conhecia-o há mais tempo do que os anos que tenho de vida. 

Infelizmente a minha companhia e aquele transporte não permitiu que atingisse o seu objectivo. A D. Vitalina faleceu. Uma perda para a família, para a nossa terra e para todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com aquela pequena senhora, de aspecto frágil mas com uma força de vida que muitos, com um quarto da idade dela e o dobro da estrutura corporal não conseguem atingir. 

Até sempre D. Vitalina, ficará na minha memória como exemplo a seguir.