E tenho outros dias…

Cheia de dores me deito e com mais dores, com mais dores me levanto… A adaptação deste verso de um fado da Amália definiu, até há bem pouco tempo, o meu dia a dia, até que decidi por -lhe um fim e a conjuntura ajudou. Entre as 40h semanais a 6 euros e picos à hora e as 35 h semanais a 8 e pouco vai uma diferença monstruosa. Tão grande que com o descanso  para noite e a folga que voltei a ter depois da noite ( que é um dia trabalhado) até parece que estou de férias.

Por aqui ajustam-se horários. Já começaram os treinos e vou ter que arranjar estratégias ou vou acabar como hoje, a largar a cozinha às 23 h, mortinha por me estender na cama e com 550 mil coisas por terminar. Felizmente as prateleiras estão montadas e a roupa da época escolhida e arrumada. Tudo o que não serve ou não se usa está devidamente acondicionado esperando calmamente uma brecha nos tempos superlotados para chegar ao seu próximo destino. Ainda assim não sinto aquela sensação de tarefa concluída porque sinto que me estou a atrasar bastante em relação aos objetivos que me impus e, provavelmente,  mais uma vez, não vou conseguir cumprir tudo o que esperei fazer. Gostava de chegar ao dia em que sentisse que a missão estava totalmente concluída mas o sonho comanda a vida e cada vez que eu sonho os meus objetivos pulam e avançam de modo que desde que fui mãe que não me lembro de me sentir totalmente realizada. Há sempre mais qualquer coisa que é necessária, sempre mais um esforço para que se consiga atingir qualquer coisa, sempre mais um sacrifício para ser melhor e resolver da melhor forma os contratempos, contrariedades ou preocupações naturais da condição de mãe. Isto não é uma queixa, nem por sombras, é um constatar de uma realidade. Ainda bem que esta realidade existe, apesar do esforço que exige, porque o meu grande objectivo de vida sempre foi a maternidade. A profissão é apenas uma forma, a melhor forma, de manter a independência e a liberdade de poder escolher o meu futuro ( embora hoje saiba que a independência e a liberdade de escolha são conceitos muito relativos) . Se vos disser que não me assustam estes novos horários estaria a ser desonesta. Treinos à hora de jantar são um problema. Vou ter que arranjar uma solução brevemente ou o orçamento mensal vai estoirar ( e daqui se depreende que a liberdade de escolha e a independência começam, logo aqui, a ser muito relativas) . Há séculos que não vejo televisão, nem lhe sinto a falta, mas recordo os meus serões de infância em que se jantava cedo e o resto da noite era passada no sofá a assistir a novela.Não posso deixar de perceber a enorme diferença entre aquela vida e a que eu levo. Juro que por vezes imagino que alguma força misteriosa me comeu as horas do dia, as melhores horas, as de descanso e conversas em família para colocar no lugar um cronómetro que vai avaliando as tarefas que consigo realizar em contra relógio. Para chegar ao fim do dia estoirada e atrasada para o que há para fazer amanhã. Chiça “púnico” é muito! Ninguém merece trabalhar assim…ou talvez sim, se acreditarmos que cada um tem o que merece, pelo menos trabalho nunca me faltou e isso nos dias de hoje só pode ser bom