Entre a voz e as sombras

Foto tirada e trabalhada por mim ( adoro fazer “pintura” com fotografia uma das possibilidades da fotografia digital)

Hoje faltei ao prometido, uma das coisas que mais solenemente me aborrecem. Tanto quando sou eu que falto como quando ficam em falta comigo. Aprendi ao longo dos tempos que estas são coisas que acontecem. Umas vezes por imponderáveis outras por ser a opção mais ponderada. 

A minha tia escreveu um livro e está a apresenta -lo por esta hora na biblioteca municipal de Grândola. Eu, como membro da família que já passou pelo mesmo tinha como obrigação estar lá a dar-lhe apoio e a demonstrar o meu orgulho. Às vezes é difícil ultrapassar o cansaço. Hoje, talvez seja só mais um desses dias ou, provavelmente é a mudança de estação a operar os seus mais que descritos efeitos de depressão do humor. Se há coisa que detesto é fazer fretes ou sorrir quando o humor é de face cerrada e um evento destes, em que alguém de quem gosto realiza um sonho, merece muito mais que um sorriso, merece uma genuína boa disposição. Sou péssima a fingir sentimentos ou a esconder desagrado ou indisposição e não gosto , nada, de fingimentos pelo que aprendi a fareja-los com alguma precisão. Talvez seja esse o meu sexto sentido. Por isso gosto ainda menos de me obrigar a fingir. Não estou de facto a sentir-me bem, na melhor das disposições e não gosto de obrigar ninguém a aturar-me nestes dias. 

Talvez este post seja um pedido de desculpas público ou talvez seja uma forma de demonstrar o meu orgulho e a minha alegria pelo livro que a minha tia escreveu, fazendo-o de uma forma que fisicamente não o conseguiria ( das únicas coisas que me tiram o sorriso da cara: a perda de alguém querido, a preocupação genuína e o cansaço) ou talvez seja mais uma forma de abrir a janela desta casa interna onde habita o meu eu, que tanta gente tem dificuldade em compreender porque a máscara social tornou-se uma segunda pele da maior parte da pessoas, sem que sequer dêem por isso. Provavelmente estarei a fazer uma coisa que, conscientemente, considero desnecessária,justificar-me, só que a mente tantas vezes funciona de forma inconsciente e automática ou mais vezes ainda se ausenta, deixando o corpo no seu automatismo tarefeiro que quando damos por isso a acção saiu.

Quero que saibas que estive em casa a pensar em ti e a torcer por uma noite feliz.Que a sombra em que por vezes me escondo não me impede de sentir e que sinto orgulho, muito, em ter podido ajudar, pelo menos inspirar para que realizasses um sonho. Esse livro ficará em memória para que netos e bisnetos e talvez mais longe ainda, consigam ouvir a tua voz muitos anos após aquilo que temos mais certo acontecer, e a nossa voz é a mais autêntica forma de deixarmos o nosso legado. Parabéns pelo teu livro!