Pensando a saúde, a minha, é a dos outros

Depois de 3 noites, a apresentação da equipa de Hóquei, da família HCPG e do primeiro jogo oficial do mais velho ( bonita vitória miúdos) agradeço não ter conseguido bilhetes para ir ver o Benfica ( promessa que vou cumprir em breve porque cá em casa cada um gosta do que gosta, mesmo que sejam gostos diferentes dos meus) ou provavelmente por esta hora estaria de patas para o ar como se fosse uma barata tonta. Assim só me sinto como se me tivesse passado um camião por cima. 

Os gatos assim que sonharam que era hora de me recolher subiram sem ser necessário chamá-los do quintal e quando cheguei ao quarto olhavam para mim com cara de quem pergunta: É agora que voltamos à rotina? Pois, meus caros, temos pena, mas vão ter mesmo que se habituar, é esta a minha rotina.

 A verdade é que comparando com o tempo em que fazia 40h e em que tinha muito menos folgas, agora é mais fácil recuperar dos turnos, apesar de continuar a haver quem defenda que nunca nos deviam ter sido dadas as 35h ( aos funcionários públicos). Continuo a bater na tecla que os funcionários públicos não podem ser todos colocados no mesmo saco. Para além disso, contínuo com a nítida sensação que ninguém sabe muito bem o que há -de fazer a seguir. 

As 35 horas eram uma necessidade para os trabalhadores da saúde, mas só os funcionários com vínculo ao estado passaram a gozar de um melhor horário. Ainda existem muitos enfermeiros embrenhados em turnos e pior, provavelmente os mais novos, que possuem menos mecanismos internos para lutar contra o desgaste da profissão, próprio de quem lida frequentemente com o sofrimento e com a morte, o que pode ser um problema futuro para a qualidade da sua e da saúde de todos. Profissionais que não estão bem, não são bons profissionais, por muito que se esforcem por isso. Depois há o problema da falta de pessoal.  Ouvi na rádio que o ministro da saúde pretende controlar a despesa pública na saúde mas temos indicações para abrir camas para fazer face ao aumento de afluência que ocorre no Inverno. Até aqui tudo bem, é bom perceber que se começa a pensar atempadamente num problema que se repete todos os anos, o problema é outro e bem mais complicado de resolver. 

Para além do contrasenso que é abrir camas e controlar despesas, esta história faz-me lembrar o problema do estacionamento em Lisboa. Sendo consensual que não é fazendo mais lugares de estacionamento que se resolve o problema do trânsito nas cidades, também aqui, me parece, o problema não se resolve abrindo mais camas. Até porque a quantidade de profissionais vão ser os mesmos e mesmo que se contratem mais enfermeiros e auxiliares, se não existirem médicos para ver atempadamente os doentes e dar alta , permitindo rotação de doentes nos serviços, mesmo com mais camas, vai tudo entupir na mesma, o hospital torna-se um depósito de doentes e de infecções cruzadas ( estão a ver as multirresistentes? Adoram essas coisas)  e os profissionais que ainda estão em fase de recuperação destes últimos malditos anos, não vão conseguir, o que resultará, por muito que se diga que não, numa possível diminuição da qualidade dos cuidados. Eis um dos motivos porque não se conseguem captar recursos humanos para o litoral alentejano. Num país do tamanho do nosso, a comunidade da saúde ( e a médica) sabe a carga de trabalho que temos, a falta de recursos para resolver algumas situações, e o risco que pode ser trabalhar nestas condições. A população não fica satisfeita e descarrega em cima dos profissionais, que se esforçam para dar o seu melhor. É uma bola de neve, um ciclo vicioso. O resto, penso que não será difícil de intuir, sem pagamento que valha a pena o risco, não há heróis. Vamos continuar a tapar o sol com a peneira. 

Se tenho soluções? É um problema complicado, que tem que ser pensado sobretudo a médio prazo e que passa, a meu ver, pela aposta nos cuidados de saúde primários, no apoio comunitário aos doentes crónicos e numa maior proximidade para as dúvidas das doenças consideradas pouco urgentes mas que entopem a urgência e esgotam os recursos. As consultas abertas não são solução e vão lá dizer a uma pessoa com febre, dor garganta e astenia suficiente para não conseguir trabalhar, que o seu problema não é urgente? Pior, as voltas que vai ter que dar para conseguir em simultâneo uma consulta e um atestado, são coisas para umas voltinhas de 100 km, sem direito a transportes. Recursos como a linha saúde 24 não resolvem estes problemas e demasiadas vezes encaminham mal os doentes, porque desconhem a região e estão mal informados (mal acessorados) sobre a realidade existente e porque é impossível perceber efectivamente o que se passa com alguém sem o observar. Porque é impossível perceber as diferenças entre as regiões, sem as conhecer. A observação é uma das maiores ferramentas dos profissionais de saúde, limitando-a condena-se ao fracasso qualquer iniciativa que pretenda diminuír a afluência aos serviços, porque somos profissionais e não há algoritmo que se aplique a um ser humano real e seja eficaz para todos. A multiplicidade e complexidade do ser humano é que faz dele tão especial. Não somos máquinas. Enquanto os problemas não forem pensados em termos de operacionalização e benefício para as comunidades mas apenas como forma de resolver problemas pontuais criando outros, não há orçamento que aguente. Nem o nosso que ficamos com os problemas na mesma, nem o deles ( tutela) que não vai parar de ter despesa de todas as formas, até no absentismo. Mas como é sabido, os enfermeiros não são pagos para pensar nestas coisas, só para dar injeções ( e enquanto permanecer esta mentalidade, a nossa saúde vai ficar exactamente como está, pobre!) 

E porque estou muito cansada que me dêem música, hoje apeteceu-me ser eu a dar