Em chamas 

Perguntaram -me hoje como vai o meu burnout. Terça-feira falei com uma amiga que não sendo da saúde também foi diagnosticada em tempos com um problema idêntico. Quantos por aí, com alterações de comportamento nem sonham o que os espera? 

O Burnout ou síndrome de exaustão profissional pode levar à depressão. “Doença específica da relação de ajuda, revela um mal-estar existencial singular e social. Coloca o sentido da vida em questão” *. São 3 as fases da exaustão ( e eu passei-as todas) : 

  1. Esgotamento emocional
  2. Despersonalização
  3. Sentimento de incompetência

As causas da exaustão podem ter factores externos e factores internos. Nos factores externos enquadra-se o volume de trabalho, a falta de sono, solicitações para o ensino e para a investigação, excesso de responsabilidade, confrontação com a nossa impotência e a morte, aumento das expectativas do público e a falta de apoio . Nos factores internos encontramos a ansiedade, o espírito de empreendimento, o desejo de agradar, o sentido de autocrítica demasiado severo, a dificuldade em delegar responsabilidades e a “mentalidade de salvador”. É uma situação paradoxal, descrita na literatura, verificar que os candidatos à exaustão se encontram entre os elementos mais válidos da nossa sociedade, tanto a nível dos seus interesses, quanto a nível das suas capacidades profissionais . A resolução deste estado passa pela redução da dependência do outro ( do próximo, dos que nos rodeiam), pelo aumento da auto estima e pela obtenção de uma verdadeira autonomia. 

Eu cheguei à depressão e foi necessário alterar radicalmente os meus comportamentos tipicamente de tolerância para uma irritabilidade constante, para conseguir começar a perceber que algo não estava bem e iniciar o longo processo de cura. A verdade é que a memória terá ficado para sempre alterada, mas nem é com isso que mais me preocupo neste momento. Cada coisa ao seu tempo.

Comecei no início do mês um novo “desmame” de anti-depressivos e já aqui tinha dito que sofro muito nesta fase. É nesta altura que mais me lembro dos toxicodependentes em fase de privação. Começou com as cãibras musculares, só tive cãibras durante as gravidezes e acordar de noite aos gritos com as dores nas pernas não é agradável. Depois são sempre pelo menos 24h até o músculo deixar de doer. São os suores, começo a transpirar, de repente, mesmo sem ter grande calor e pinga a testa, as dobradiças e todos os pontos de contacto do corpo. As tonturas são quase as minhas melhores amigas, nunca deixei de as ter desde que iniciei os anti-depressivos, mas as vertigens muitas vezes quase que me jogam ao chão. Enfim, um mal necessário. Ainda bem que vou encontrando outros prazeres para além do trabalho, outras actividades que me satisfazem, ainda assim até aqui chegar, tudo me parecia trabalho, dever, tudo me levava ao aborrecimento e a sentir-me exausta. É na quantidade de coisas que produzo, sem me sentir cansada, que consigo medir o alcance das minhas vitórias, o quanto estou e me sinto melhor. Hoje foi um dia bom, um dia em que percebi que talvez ainda tenha alguma coisa para dar, nem que seja pura e simples informação. 

…e o jantar foi cozinhado ao som de boa música, um prazer que eu tanto gosto




* Delbbrouck, Michel (2003), Síndrome de Exaustão (Burnout) , pág 41