Coisas que vêm com o tempo

Já partilhei aqui esta música antes. Inception talvez tenha sido o último filme que vi e me causou desconforto. Desconforto no sentido em que a mente é a nossa última fronteira, a nossa última fortaleza, a única coisa que nos comanda, nos define, o local da verdadeira liberdade. As ideias e os sonhos são a expressão da forma como a sentimos, a vivemos. Ver alguém produzir um filme onde se planta a ideia da possibilidade de inverter a nossa capacidade de sermos donos e autores das ideias, perturbou-me. Talvez seja o lugar que mais me perturba – os mistérios escondidos na mente humana. Não gostava que me lessem os pensamentos, assim como não gostaria de ler os pensamentos de ninguém. Infelizmente, descubro muitas vezes mais sobre a mente dos humanos do que aquilo que gostaria de saber. O limbo entre a realidade e o sonho é um local perigoso onde se pode perder muita coisa. O binómio tempo/espaço e o que a nossa cabeça projecta sobre ele tem sido um campo onde têm proliferado muitas ideias. Sabendo nós a capacidade de tornar os seus sonhos realidade não posso deixar de me preocupar. Sonhámos  a lua, tivemos a lua. Sonhámos Marte e vamos a caminho. Não sei se a internet foi um sonho mas sei que nos invadiu a vida com repercursões ainda  por descobrir. Não gosto que se sonhe sobre a prisão dos sonhos. E porquê toda esta conversa? Porque  hoje se celebra a passagem do tempo. Chronos, esse que o homem ainda não conseguiu dominar, embora tenha sido essa a sua vontade ao longo de toda a historia humana. Celebre-se então o ser humano. Viver, o único  poder que temos contra a passagem do tempo.  Que se deixe a mente, o sonho, a ideia do outro na paz do seu mundo próprio. Não queiramos impor ao outro aquelas que são as nossas vontades e não deixemos que nos façam o mesmo a nós. É esse o meu desejo da passagem do tempo: que o Homem  deixe  de querer dominar para passar a querer respeitar.                                          

Por estes dias tenho tentado resistir à tristeza. É inevitável, nestes momentos de dor comum, em que se sente a perda a percorrer o ar da nossa terra, livre e à solta, não me lembrar dos muitos que foram partindo ao longo dos anos. O meu primo Bruno, o meu “mano” João, a Susana, o Tito, o Pedro e mais recentemente o Jorge só para citar os mais significativos e na certeza de que me esqueço de muitos. Todos vítimas de acidentes mas nem todos de viação. É com saudade que estes momentos me devolvem lembranças. É com alguma raiva que lembro as múltiplas solicitações para que se façam obras nas estradas, para que se revejam sinalizações mal feitas, para que quem vai para a estrada se lembre que a condução é incompatível com o álcool e para que se cumpram as horas de descanso obrigatórias porque, numa hora de azar, por mais desculpas que existam, por mais condenações que se façam, nada traz de volta uma vida que se perdeu. O antes é mil vezes mais seguro que o procurar depois os porquês, quando por vezes nem existem. É nessa altura que a resiliência portuguesa presiste. Foi assim, porque tinha que ser. Esperamos que geração após geração, estes números vão diminuindo, melhorando as condições e as prevenções, capacitando quem perde a ultrapassar essa perda e quem fica a exigir melhorias nas estradas, nas campanhas de prevenção, na educação para a cidadania e na resposta a dar a este tipo de emergência. Sofrem pais e mães, irmãos, amigos, sofre o país que vai perdendo de forma trágica o seu capital de futuro, os jovens, que vão sendo cada vez em menor número. 

Com o meu facebook inundado de fotos e de votos de pesar, compreensíveis, como manifestação da dor comum e de apoio à enorme perda das 3 famílias, tive necessidade de me afastar, para não ser inundada pelas ondas de tristeza. Assim, que melhor forma de me distrair do que acender a televisão. O cenário não é muito melhor. Para além da entrevista a António Guterres, que se revelou, para mim, que tenho andado afastada daquilo que tem sido o seu percurso – depois de ter fugido e nos ter deixado em maus lençóis – o homem certo no lugar certo. O conhecimento que parece revelar do terreno onde os capacetes azuis actuam, o facto de ter escolhido 3 mulheres para a sua equipa mais próxima revelam uma sensatez e diplomacia surpreendentes. O mundo necessita de alguém que reconheça os sinais que são necessários enviar e que tenha a noção clara que com os diversos actores é necessário um diálogo distinto e adequado à cultura e hábitos sociais. A forma clara como falou dos refugiados e da inaptidão da Europa para resolver o problema, a forma simples como explicou o que vai ser o desenvolvimento sociológico europeu, dando o exemplo da sua própria mãe, foram para mim suficientemente claros para perceber que vai tentar fazer o melhor trabalho ( e não papel) possível…E depois vem Angola, e o despertar ( finalmente) dos média portugueses para aquilo que se deve considerar um autêntico atentado contra os direitos humanos. Independentemente do papel que os portugueses tiveram no passado, melhor ou pior, o que se passa no presente é uma vergonha e deve ser condenado socialmente de todas as formas possíveis. Deixo-vos o vídeo para que vejam e reflitam. E volto ao princípio desta conversa, onde dizia que os jovens são o capital do futuro e que o desinvestimento na prevenção, na educação, beneficiando a corrupção e só os mais favorecidos, poderão ter consequências desastrosas num futuro não muito longínquo. 

Ver aqui ( imagens que podem ferir algumas susceptibilidades) 

Don’t let the sun go down (on us)

Já se disse o que havia a dizer, mas para mim foi a grande perda do ano. Mais, muito mais, que qualquer outro que ficou pelo caminho. Embora fã de música não sou uma verdadeira fã de bandas ou artistas. Não me interesso pela vida da pessoa, para além da sua vertente profissional a não ser que a sua conduta seja tão desastrosa que me tire a vontade de ouvir a música. Mesmo assim acho que foram poucos os casos. As revistas cor de rosa têm,por isso, muito pouca influência na minha vida. Já a música produzida pelos artistas, não. Como toda a excepção confirma a regra, talvez este tenha sido dos músicos de que mais sobe, a nível pessoal ( ou do que nos vendem, vá!). Tinha 6 anos quando os Wham! me começaram a fazer sonhar e talvez daí tenha ficado o interesse ou, simplesmente, a imagem e o som sempre se adequaram às várias fases que fui passando na vida. Wake me up before you go-go, last christmas, careless whisper…

Ainda assim não foi dos Wham! a parte que mais gostei. Quase todos os álbuns na carreira de George Michael conseguem identificar-se com uma fase da minha vida e no fundo a música é só mais uma expressão artística que nos trás à memória ou nos transporta para lugares que nos deixaram saudades e onde regressamos sempre que os sons se desdobram no ar quando repetimos melodias. É o nosso desejo de ficar em alguns momentos que nos faz identificar esta e aquela música a sensações, a pessoas, a momentos. Tenho muita pena que se tenha perdido a presença física, a capacidade para produzir mais. Mas se há coisa que os grandes artistas conseguem é imortalizar-se para além dos tempos através da sua obra. Isso é coisa que ao comum dos mortais só lhe é permitido através das marcas que deixam no outro. Estas músicas deixaram-me marcas, mas vão ficar marcadas muito para além do rastos que deixaram em cada um que as apreciou. Acho que, melhor ou pior, é só isto que é a arte. 

As minhas favoritas: 

rebeldia

sentimento  ( e a lembrança de uma altura em que fui muito feliz)

esta que vou buscar muitas vezes, sempre que preciso recordar que, aconteça o que acontecer, a vida irá sempre continuar, connosco ou sem nós. Só sabendo o pouco que valemos, podemos tentar ponderar, sempre, a melhor decisão. Por muita pena que sintamos em abandonar certos caminhos ou escolher entre coisas que queríamos, a vida é feita de escolhas e é sempre melhor a escolha que nos ilumina.

Do que não vale o preço pago 

Chego a esta hora exausta e nem sei muito bem porquê. Acredito que acontece à grande parte de nós mas por motivos diferentes. Uns porque esta época é uma correria, outros porque são viagens grandes para se chegar onde são esperados e outros,como eu, porque a falta de sono e de ordem cansam mentalmente. As festas também cansam quando passamos a fasquia dos 35 ! E por aqui festas querem-se é bem regadas. Não falo de prendas porque para mim não é isso o natal embora não entre no discurso anti-consumismo já que, é tantas vezes nesta época, que cometemos as “loucuras” a que não nos permitimos durante o resto do ano e isso, para quem o esforço de gestão dura 12 meses, não dá felicidade, mas ajuda muito. 

As prendas foram as suficientes e chegaram para me alegrar. O melhor das prendas é poder oferecer e o melhor de oferecer é poder também disfrutar. Por isso vinho é das prendas que mais gosto de oferecer e de receber. 

Este ano a minha escolha cega recaiu sobre o incógnito. Mais uma vez comprovei que nem sempre o maior preço significa maior qualidade e a conclusão a que chegámos é que é bom,mas não o suficiente para o preço que pedem por ele. Ficou a ganhar o Syrah da Peceguina. 

Também ganhei ( mais peso) com os sonhos de abóbora e as azevias e uma série de avisos de que tenho ( outra vez) que emagrecer. Não que me importe com a imagem ( já passei essa fase, felizmente) mas porque, por razões de saúde, toda a minha gente acha que devo perder peso ( para além de que o meu IMC vergonhosamente me apelida de obesa – o ordinário) . Assim, regado a tinto suficientemente bom, prometi,aqui, a mim mesma, que a resolução de ano novo seria o batidissimo perder peso para não ter que ouvir toda a gente a dizer que tenho que emagrecer ( e por razões de saúde ….  e por que me recuso a ter um IMC que tem a ousadia de me chamar obesa) . Tenho escrito!