E é natal outra vez

Ando sem vontade nenhuma de escrever. Talvez porque tenha muito mais em que pensar neste momento, ou talvez porque, mais uma vez, esteja na altura de mudar de expressão artística. 

Aconteceu já várias vezes na minha vida e é cíclico, alterno porque necessito inovação, mudança, algo que seja ao mesmo tempo um estímulo e um desafio. A minha viola voltou, depois de uns tempos na mão do meu sobrinho. Olho para ela com vontade de “sacar” de lá alguma coisa, o que vai exigir de mim muito treino e alguma dedicação. Um instrumento musical é quase como um filho. Para se conseguir alguma qualidade é necessária disponibilidade e dedicação. Ainda lhe tiro umas notas suaves mas muita coisa se perdeu na memória já que, foi sempre com a memória que contei, para guardar as aprendizagens que fiz, ao longo de alguns anos, com ela. 

Talvez a escrita esteja, por agora, a necessitar de uma pausa. Nestes últimos anos escrevi quase diariamente em blogs, escrevi um livro de poesia, um de histórias para crianças, outro de mini contos entre vários trabalhos académicos e ainda me falta a derradeira revisão integrativa de literatura, trabalho que marcará o fim de uma época e que tem sido tirada a “saca rolhas”, como se costuma dizer por aqui, e que me tem tirado a vontade toda de escrever. Quando deixa de ser um prazer para ser obrigação tudo o que faço perde a piada. Não sei se é defeito meu ou se é feitio da peça que terei de carregar até ao fim dos meus dias. 

Podia contar-vos muitas coisas mas os dias têm sido essencialmente iguais, o que não é bom nem mau é apenas sinal de estabilidade. Entre os fins de semana desportivos, porque decidi um dia que essa seria a melhor forma de os meus filhos gastarem os seus tempos livres, e as obrigações laborais e de gestão caseira, as migalhas do que sobra gastam-se em pequenos sonhos de consumismo ou de conforto físico e psicológico alternados com as viagens e espectáculos ( poucos agora) a que vou podendo assistir. Tudo fruto de escolhas minhas, não da sorte ou do azar, mas deste jogo de erra e acerta a que chamamos vida. 

Congratulo-me por ter conseguido atingir novamente a sensação de estabilidade, fiz um enorme esforço para aqui chegar novamente e sinto-me a entrar na velocidade de cruzeiro da vida. Não espero nada de novo, portanto o que vier a seguir é ganho. É como se tivesse chegado ao patamar de um lance de escadas. Agora posso descansar um pouco, até sentir necessidade de subir um novo lance. Acho que é isto que se sente quando se perde o deslumbre por qualquer coisa. Talvez os anos 30 da vida seja a década da perda do deslumbre, a década em que percebemos o que é sonho e nunca deixará de o ser e aquilo que pode ser exequível. Não é propriamente mau, até bem pelo contrário, é seguro e numa época em que a segurança é uma das nossas maiores preocupações, chegar ao fim da 3 década da minha vida nestas condições parece-me até uma benesse…
… e sim, cá em casa, apesar do querido ter vindo mudar a casa e fazer obras, já montei a árvore de natal!