As histórias de Natal dos simples mortais

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Algarve 2012 – Umas férias inesquecíveis que me mostraram que sozinha também é possível

Por aqui somos “todos amigos”. Uma dessas frases correntes, das que se vêm escritas em todo o lado, diz que a família não podemos escolher, mas os amigos sim. Bem, por aqui, nestas zonas com menos população, onde quase toda a gente se conhece, não é bem assim, pelo menos nunca de inicio. Andamos todos nas mesmas escolas, e agora cada vez mais é assim, desde que fecharam as escolas de 1º ciclo que ainda iam havendo nas aldeias limitrofes. Sabemos da vida, dos hábitos e até dos gostos de todos e cada um, especialmente se formos mais observadores, e é impossível não sentirmos algum tipo de afinidade com aqueles, que mesmo sendo o oposto daquilo que são os nossos objectivos de vida, cresceram lado a lado connosco. Só mais velhos vamos filtrando, acrescentado aqui, cortando ali, afunilando os gostos, as semelhanças. Depois vêm sempre alguns enredos, melhor ou pior vividos e são essas vivências que nos vão mantendo unidos ou distantes. Fizemos hoje as contas e já lá vão, pelo menos, 25 anos: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte nos separe, ou nos volte a unir…

Dizia-me um amigo hoje durante o cortejo: cá estamos, outra vez…e começa, infelizmente, a tornar-se recorrente. A vida separa-nos, cada um escolhe o seu caminho. São as circunstâncias, é a vida como gostamos de dizer, empurrando com a barriga para a frente o tempo que não vamos conseguindo encontrar para nos encontrarmos. Na doença, na tristeza, no fim, temos sempre tempo para os amigos e talvez seja aqui que reside a diferença entre nos conhecermos todos e sermos verdadeiramente amigos.

Hoje acompanhei pela última vez uma grande mulher, que tem como primeira filha uma mulher que me orgulho de ter como amiga. Talvez tenhamos sido da fornalha das sem medo ou tenham simplesmente sido os exemplos que tomámos e interpretámos cada uma a seu jeito, mas a vida apesar dos pesares não nos tem assustado. Isso é um privilégio. Metade do que somos devemos às nossas mães. Hoje, enquanto escrevo estas palavras, metade de mim é saudade, metade de mim é amizade. Recordo aquelas mulheres, a Bia, a Júlia de volta com a primeira panela industrial que vi na vida. Eu pequena e aquela panela enorme, com elas, os almoços e os jantares dos “velhotes”.

Hoje a minha vida é em grande parte dedicada a estas pessoas mais velhas e doentes.A Júlia partiu mas tal como disse o sr padre na ultima cerimónia, o exemplo de trabalho e dedicação aos filhos que deixou, é um exemplo que nos deve fazer reflectir. Só com um naco de pão e muito amor podem fazer-se milagres. Eles aí estão, para deixar o testemunho da grandeza da sua obra: filhos, netos e todos os que ela amou, a seu jeito, a seguiram prestando-lhe a última homenagem. Como não gosto de cortejos fúnebres, esta é a minha.

O Natal celebra o nascimento daquele que, segundo o que me ensinaram, veio ao mundo para nos salvar, trazendo consigo a boa nova. Celebrarmos a vida de alguém que amou os seus e os outros como se fossem seus é uma boa forma de vos deixar uma reflexão sobre o que significa paz e amor.

Desejo-vos um feliz natal!!

 

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