Por estes dias tenho tentado resistir à tristeza. É inevitável, nestes momentos de dor comum, em que se sente a perda a percorrer o ar da nossa terra, livre e à solta, não me lembrar dos muitos que foram partindo ao longo dos anos. O meu primo Bruno, o meu “mano” João, a Susana, o Tito, o Pedro e mais recentemente o Jorge só para citar os mais significativos e na certeza de que me esqueço de muitos. Todos vítimas de acidentes mas nem todos de viação. É com saudade que estes momentos me devolvem lembranças. É com alguma raiva que lembro as múltiplas solicitações para que se façam obras nas estradas, para que se revejam sinalizações mal feitas, para que quem vai para a estrada se lembre que a condução é incompatível com o álcool e para que se cumpram as horas de descanso obrigatórias porque, numa hora de azar, por mais desculpas que existam, por mais condenações que se façam, nada traz de volta uma vida que se perdeu. O antes é mil vezes mais seguro que o procurar depois os porquês, quando por vezes nem existem. É nessa altura que a resiliência portuguesa presiste. Foi assim, porque tinha que ser. Esperamos que geração após geração, estes números vão diminuindo, melhorando as condições e as prevenções, capacitando quem perde a ultrapassar essa perda e quem fica a exigir melhorias nas estradas, nas campanhas de prevenção, na educação para a cidadania e na resposta a dar a este tipo de emergência. Sofrem pais e mães, irmãos, amigos, sofre o país que vai perdendo de forma trágica o seu capital de futuro, os jovens, que vão sendo cada vez em menor número. 

Com o meu facebook inundado de fotos e de votos de pesar, compreensíveis, como manifestação da dor comum e de apoio à enorme perda das 3 famílias, tive necessidade de me afastar, para não ser inundada pelas ondas de tristeza. Assim, que melhor forma de me distrair do que acender a televisão. O cenário não é muito melhor. Para além da entrevista a António Guterres, que se revelou, para mim, que tenho andado afastada daquilo que tem sido o seu percurso – depois de ter fugido e nos ter deixado em maus lençóis – o homem certo no lugar certo. O conhecimento que parece revelar do terreno onde os capacetes azuis actuam, o facto de ter escolhido 3 mulheres para a sua equipa mais próxima revelam uma sensatez e diplomacia surpreendentes. O mundo necessita de alguém que reconheça os sinais que são necessários enviar e que tenha a noção clara que com os diversos actores é necessário um diálogo distinto e adequado à cultura e hábitos sociais. A forma clara como falou dos refugiados e da inaptidão da Europa para resolver o problema, a forma simples como explicou o que vai ser o desenvolvimento sociológico europeu, dando o exemplo da sua própria mãe, foram para mim suficientemente claros para perceber que vai tentar fazer o melhor trabalho ( e não papel) possível…E depois vem Angola, e o despertar ( finalmente) dos média portugueses para aquilo que se deve considerar um autêntico atentado contra os direitos humanos. Independentemente do papel que os portugueses tiveram no passado, melhor ou pior, o que se passa no presente é uma vergonha e deve ser condenado socialmente de todas as formas possíveis. Deixo-vos o vídeo para que vejam e reflitam. E volto ao princípio desta conversa, onde dizia que os jovens são o capital do futuro e que o desinvestimento na prevenção, na educação, beneficiando a corrupção e só os mais favorecidos, poderão ter consequências desastrosas num futuro não muito longínquo. 

Ver aqui ( imagens que podem ferir algumas susceptibilidades)