Coisas que vêm com o tempo

Já partilhei aqui esta música antes. Inception talvez tenha sido o último filme que vi e me causou desconforto. Desconforto no sentido em que a mente é a nossa última fronteira, a nossa última fortaleza, a única coisa que nos comanda, nos define, o local da verdadeira liberdade. As ideias e os sonhos são a expressão da forma como a sentimos, a vivemos. Ver alguém produzir um filme onde se planta a ideia da possibilidade de inverter a nossa capacidade de sermos donos e autores das ideias, perturbou-me. Talvez seja o lugar que mais me perturba – os mistérios escondidos na mente humana. Não gostava que me lessem os pensamentos, assim como não gostaria de ler os pensamentos de ninguém. Infelizmente, descubro muitas vezes mais sobre a mente dos humanos do que aquilo que gostaria de saber. O limbo entre a realidade e o sonho é um local perigoso onde se pode perder muita coisa. O binómio tempo/espaço e o que a nossa cabeça projecta sobre ele tem sido um campo onde têm proliferado muitas ideias. Sabendo nós a capacidade de tornar os seus sonhos realidade não posso deixar de me preocupar. Sonhámos  a lua, tivemos a lua. Sonhámos Marte e vamos a caminho. Não sei se a internet foi um sonho mas sei que nos invadiu a vida com repercursões ainda  por descobrir. Não gosto que se sonhe sobre a prisão dos sonhos. E porquê toda esta conversa? Porque  hoje se celebra a passagem do tempo. Chronos, esse que o homem ainda não conseguiu dominar, embora tenha sido essa a sua vontade ao longo de toda a historia humana. Celebre-se então o ser humano. Viver, o único  poder que temos contra a passagem do tempo.  Que se deixe a mente, o sonho, a ideia do outro na paz do seu mundo próprio. Não queiramos impor ao outro aquelas que são as nossas vontades e não deixemos que nos façam o mesmo a nós. É esse o meu desejo da passagem do tempo: que o Homem  deixe  de querer dominar para passar a querer respeitar.