Compressas em tecido não tecido

Nunca fui grande fã do Inverno. Tudo aquilo que combina com Verão sempre foi muito mais condizente comigo. Gostava mais das frutas de verão, das roupas de verão, das festas no verão… Só que, as coisas vão mudando e até os gostos se transformam ( o melhor exemplo que tenho disso era a minha repugnância a espinafres que se tornaram, só, na verdura que mais gosto). 

Hoje o inverno tem um sabor especial.  Talvez seja também o meu imaginário em torno da época, que ajuda a dar um ou outro toque de magia a uma determinada época do ano. O verão só vem depois do Inverno e este não tem o mesmo sabor se não tiver um bom verão antes da sua chegada. 

Se é bem verdade que antes sonhava com férias em lugares paradisíacos, com palmeiras e muita água do mar, hoje as minhas viagens de sonho incluem neve e auroras boreais, que, se me falecer sem ver uma, hão-de ficar almas a penar pela minha tristeza – adiante- cada um toma as dores que melhor lhe cabem ou consegue suportar.

O inverno traz-me uma sensação de conforto e segurança que já não consigo sentir no verão. Como se o ano solar, de uma viagem cíclica ao fundo de mim, se tratasse, continuamente. Venho de fora, do encontro com os outros para me fechar na minha concha e me deixar estar assim pelo inverno dentro até à chegada da Primavera. É assim que estou, então. Centrada no umbigo, fechada na concha, a lamber as feridas que não se vêem mas que eu ainda sinto. E sinto-me perfeita nesta minha redoma de vidro de onde observo o mundo e o vou interpretando ao meu jeito, com as minhas referências próprias produto das minhas vivências… Como aquele elefante de papel que vi, num café que frequentei e que infelizmente fechou ( um espaço cheio de ideias e onde me sentia bem, o que é difícil encontrar por aqui)  pendurado num baloiço, do tecto, com um pequeno balão de pensamento por cima da cabeça, que dizia ” Não me toques, sou frágil”. Apaixonei-me por aquele pequeno elefante assim que o vi. Como se o pequeno elefante de papel fosse um pequeno espelho meu. Irónico não é?