De corpo e alma

As dores voltaram. Não sei se é do frio se de, finalmente, estar a diminuir a medicação anti-depressiva. As dores voltaram mas não se comparam, nem de longe, nem de perto, com as que tive. São moinhas e pouco mais, de tal forma insignificantes que nem merecem analgésicos. Habituei-me tanto a defender-me que à pergunta: está coxa? Respondo que não, que é o meu andar, mas se me concentrar em mim mesma lá está a dor, que à força de ter tido tantas e durante tanto tempo, me passa despercebida. Pois, tenho dor. Desta vez é a perna esquerda. É claro que com as horas de trabalho, quando dou por isso, já é um “bolo”de dor e desde o calcanhar até à coluna dorsal dói tudo. Passa com o descanso o que significa que interna e externamente, estou controlada. Maus, foram aqueles tempos em que acordavam e me sentia uma pedra mármore, fria e dura. Em que a cada movimento, era um sofrimento, como se tivesse estado uma eternidade deitada e todas as articulações tivessem enferrujado no entretanto. Rejuvenesci, portanto, neste último ano. Como se tivesse ganho os anos que me passaram a correr entre um trabalho e outro e outro e outro. 

Sei que já não vou recuperar esses anos. O que passou está passado, mas acordar de manhã e não sentir nada é o mais próximo da sensação pura de felicidade, que conheci nos últimos anos. Digo por graça que mau, mesmo mau, é quando ainda estás meio a dormir e já sentes uma qualquer parte do corpo em sofrimento. Cheguei a acordar por, no meio dos poucos sonhos que tinha, uma coluna, uma perna ou um ombro se vir colar aos sonhos como se fosse um emplastro: estou aqui e vim para te fazer sofrer. A verdade é que à custa de tanto tentar ignorar as dores, desenvolvi uma capacidade de abstração ao sofrimento que deve ser invejável por qualquer mestre budista. Talvez por isso tenha aguentado tanto em condições completamente opostas àquilo que considero essencial para o meu bem estar. Dormência do corpo e da alma.

Bom mesmo, é quando podemos ter alternativas, quando nos é permitido escolher. Talvez liberdade seja apenas isso: alternativas, opções de escolha, capacidade física, psicológica e monetária para seguir o nosso caminho, segundo a nossa própria vontade. Tudo o resto são utopias, daquelas que escritas ficam bonitas mas na prática pouco nos acrescentam. São a escolha e a decisão que definem a liberdade. Era bom que, como sociedade, tomassemos consciência disso: as decisões de cada um só a si lhes dizem respeito e a nós só nos cabe respeitá-las desde que não prejudiquem terceiros. Talvez assim não criassemos aos outros problemas que eles não têm.