Coisas que fazem a espécie …

…De gente que somos. A propósito deste artigo ( é agora que respiro fundo, faço a minha pose de monge budista e conto até 536, ou mais…) 

Explico: o meu mais velho está no nono ano, tem 14 anos portanto, eu naquilo que posso e consigo ( estamos todos em multitarefa e todas as mães que trabalham percebem este consigo) tento estar a par das matérias e dos estudos. Tento. O meu Rodrigo teve a sorte de ter uma excelente professora de português que tudo faz para que aprendam a língua. Além disso incentiva-os à leitura que é a tarefa hercúlea dos professores de português desta geração ( quem não leu, não lê, não percebe talvez a alusão que fiz nesta frase aos doze trabalhos de Hércules uma das melhores histórias da mitologia grega – daí a importância de ler, de conhecer, de ter cultura, para além da frase simples do Google ou do Facebook). Pergunto-me em que mundo viverão esses miúdos a quem os pais retiraram a oportunidade de ler um livro de um grande autor português contemporâneo. É que esse, acho eu, será um dos grandes problemas do programa obrigatório. Sou a favor dos clássicos, se não conhecermos a história da nossa literatura, não poderemos nunca conhecer a nossa língua, mas é cada vez mais difícil adequar os clássicos à realidade actual. Este ano temos os “monstros” Gil Vicente, com o seu auto da barca do inferno e Luís de Camões com os Lusíadas ( uma epopeia portuguesa comparável com as grandes epopeias gregas como a Ilíada ou a Odisseia, que conta a história de Hércules, precisamente. De cada vez que falamos nos Lusíadas, para além do famoso livro do Avô por onde estudou já uma geração da família, com os seus apontamentos laterais, aqui a mãe, que é meio louca, como se sabe, começa logo a recitar a parte que sabe de cor desde que os estudou: “As armas e os barões assinalados/ que da ocidental praia lusitana/ por mares nunca dantes navegados/passaram ainda além da Taprobana – por esta altura já eles estão os dois a revirar os olhos e a gritar: mãe, paaaaara! 

É cada vez mais difícil traduzir ( sim, traduzir) esta linguagem para que os miúdos entendam. Não lhes diz nada. Já aquilo que li, do excerto da obra de Valter Hugo Mãe, é exactamente a linguagem na escola, a linguagem de todos os dias ( infelizmente) na televisão, nos jogos de futebol, na conversa uns com os outros. Se os queremos incentivar a ler, não será mais fácil com linguagem que eles entendam, que lhes chame a atenção ( do que com linguagem que não lhes diz nada ) para que depois se interessem pelas grandes obras? É que o calão também faz parte da língua, ou os miúdos não vivem neste mundo? Estarão em alguma bolha? Não estarão, mais uma vez, os pais completamente desadequados fazendo com os miúdos desconheçam por completo as leis da vida?? Não estarão os pais a querer mais uma vez proteger os filhos contra uma coisa de que nunca os vão conseguir proteger e que se chama vida? Se eles lerem e tiverem por perto alguém que lhes incuta valores e formação vão conseguir pensar pelas próprias cabeças, reflectir, perceber o que querem ser e como querem ser, não é a linguagem violenta que os vai fazer violentos mas os exemplos que têm. Estarei errada? Sinceramente, não me parece. Enquanto continuarmos a fazer de conta que as crianças nunca vão crescer não estamos a educa-los estamos só a desadequa-los. É o que eu acho! Queria eu que que os meus quisessem ler Valter Hugo Mãe.