Reflexões aos 40 

O drama da condição humana deriva unicamente da consciência.Claro que são a consciência e as suas revelações que nos permitem criar uma vida melhor para nós e para os outros, mas o preço que pagamos por essa melhor vida é bem elevado. Não se trata apenas do preço do risco, do perigo e da  dor . Trata-se do preço de conhecer o risco, o perigo e a dor. Pior ainda: trata-se do preço de saber o que é o prazer e de conhecer quando este está ausente ou é inatingível.

Consequentemente, o drama da condição humana deriva da consciência, uma vez que está ligado a um conhecimento obtido através de um acordo que nenhum de nós negociou: o custo de uma existência melhor consiste na perda da inocência acerca da própria existência. O sentir daquilo que acontece é a resposta a uma questão que nunca colocámos, e é também moeda de transação Faustiana, que nunca poderíamos ter feito. Foi a natureza que a fez. 

Mas drama é uma coisa e tragédia é outra. Até certo ponto, embora de forma imperfeita, dispomos de meios individuais e coletivos para guiar a criatividade e melhorar a existência humana. Este projecto não é fácil de levar a bom cabo; não dispomos de plano orientador; os êxitos podem ser mínimos e o insucesso é provável. Apesar disso, mesmo que modestamente, se a criatividade for bem dirigida, permitiremos que a consciência cumpra uma vez mais o seu papel de regulação homeostática da existência. O conhecer ajudará o ser. Tenho até alguma esperança que a compreensão da biologia da natureza humana nos ajude um pouco nas decisões que precisamos tomar. Seja como for, melhorar o nosso quinhão de existência é precisamente aquilo em que tem consistido a civilização, principal consequência da consciência e, desde há pelo menos três mil anos, com mais ou menos sucesso, melhorar a existência é aquilo que a civilização tem vindo a tentar. Dá alento pensar que já vamos a meio do caminho. 

                                    In O sentimento de si  – António Damásio


 Um estudo/reflexão sobre a neurobiologia da consciência, o corpo e a emoção, que simplesmente adorei ler. Dá realmente alento pensar que já vou a meio do caminho! 

O livro da minha vida continua a desfolhar-se página a página…
Seguimos para o próximo livro. Não sei se este fenómeno acontece em todas as casas mas nas minhas há objectos que têm tendência a ser ” engolidos pelo chão” . Comprei um livro do Afonso Cruz, porque me aconselharam a ler, certos de que iria gostar e fiquei curiosa. Finalmente consegui compra-lo e deixei-o a “marinar” enquanto lia o sentimento de si. Curiosamente, ou não, não o consigo encontrar. Estará por aqui algures e nesta minha forma de viver a vida acredito que me chegará no momento em que tiver que ser lido. Entretanto anda por aí perdido algures. Estas pequenas coisas, que são o cerne da minha vida, são fruto da minha distração crónica ou como prefiro dizer, do tempo que passo a tomar atenção aos meus próprios pensamentos e distante das pequenas minudências. Entretanto, na procura, dei com os olhos no Homem de Sampetersburgo, um livro que tenho a certeza que já li ( consigo recordar-me de o estar a ler, num verão) mas de que não me lembro nem de uma passagem, nem da história, nem de nada – branca total. Uma das curiosas consequências dos anos negros da depressão, uma interessante forma de resistência do cérebro humano: do que não me lembro não posso recordar o preço que paguei. Nada está perdido. Irei lê-lo agora, até aparecer o  Afonso Cruz. 

A ver sempre o lado luminoso da lua

É sabido que faz parte da minha política de sobrevivência ver sempre o lado positivo de tudo, então cá vai: 

Perdi 3 kilos nestes dias, resta saber à conta de quê ( líquidos ou músculo? é que a gordurinha está cá toda na mesma 😂) 

Descobri que afinal uma gasimetria não dói assim tanto como nós apregoamos aos doentes. O que dói é depois, porque mesmo que seja bem feita ( e foram) e que se faça uma boa compressão ( que fiz) o pulso fica com hematoma e isso dói. 

É isto, a virose descobriu-me a fraqueza e agora já não me safo à colonoscopia. Entretanto vou repondo os iões da melhor forma possível – pela alimentação. Que isto de ser picada várias vezes deixa mazelas. Em descanso…

Vivendo e aprendendo 

Costuma dizer-se que “em casa de ferreiro espeto de pau”. Pois este ditado popular aplica-se certeiro em mim. Os miúdos andaram durante pelo menos duas semanas com mau estar a que não dei grande importância. O mais pequeno chegou a vomitar umas noites, não seguidas, sem febre e com episódios de diarreia esporádicos. O mais velho teve 2 ou 3 episódios de astenia ( falta de força, falta de vontade) acompanhada de cefaleia ( dor de cabeça) e pouco mais. Sintomas de doença de pouca importância ( na minha perspectiva, que passo a vida envolvida com doenças, por vezes sem grande remédio que lhes valha) . Esta fase passada e eis que me deparo com a questão mais que oportuna do meu filho mais novo: oh mãe, explica-me lá por que é que eu sou o único menino que vomita e vai à mesma para a escola? Bom, passando por serem episódios de vómitos únicos que não se repetem, ao facto de não fazer febre, tentei ainda explicar-lhe como faltar ao trabalho pode ser complicado no trabalho da mãe, em que os doentes estão lá na mesma e precisam de quem tome conta deles, sendo que se a mãe não for, alguém que está de folga tem que ir ou até mesmo a pessoa que esteve a trabalhar no turno antes tem que fazer o turno da mãe e tu não gostas quando isso acontece e é a mãe que tem que seguir , pois não? 

A conversa ficou por aqui mas eu tomei uma nota para mim mesma que tenho que deixar de ser tão inflexível com as pequenas maleitas dos miúdos. Toda a gente gosta de mimo e atenção quando se sente mal. E eles não têm culpa de lhes ter proporcionado um sistema imunitário resistente a muita coisa. 

Como sempre, se estivermos atentos, a vida faz-nos aprender as lições à nossa custa. Preparada que estava para passar uns dias fora, numas jornadas de cuidados respiratórios e eis senão quando acordo a meio da noite, mal disposta que doía. 30 segundos para identificar que sensação era e …Ora bolas! Vou vomitar! O resto não será necessário descrever que todos saberemos o que se seguiu. A meio do acto entra em cena o pequeno, cabelo todo no ar, olhos meio abertos, meio fechados e aquele olhar típico de desprezo: vais assim nesse estado??? 

Como sempre, não dei parte de fraca. Pois claro que vou!!! 

1 a 0 para o Afonso, não fui capaz de me levantar, nem nesse dia nem hoje. Desidratei que foi um instante. A minha patologia inflamatória deve ter-me acertado em cheio no intestino pelo que há já cerca de um ano que o meu padrão intestinal mudou sendo que comparado com o antes, ando permanentemente com diarreia, medicada claro! Somando a isto vómitos e ainda maior diarreia bastaram umas horas para parecer que tinha sido atropelada por um camião. Ainda ouvi a graçola do Afonso, antes de ir para a escola: então, não foste? 

A primeira acção é dieta zero por umas horas e depois hidratar, hidratar, hidratar. Soros caseiros é o que é mais fácil de arranjar. Eu prefiro a coca-cola depois de lhe tirar o gás, mas o Ice tea é melhor ( não gosto de Ice tea) ou chá açucarado ou qualquer líquido doce. Depois segue-se o famoso arroz cozido em caldo ( canja, eu prefiro arroz com grão mas sem o pombo e sem gordura) abençoada mãe que tem paciência para me cozinhar estas coisas e abençoado pai que tem paciência para mas vir trazer. E aqui estou 24 horas depois, a aprender a lição de que devo valorizar as queixas dos meus filhos, porque apesar de serem agora fisicamente mais resistentes a estas maleitas do que eu, toda a gente gosta de mimo quando não se sente bem. 

E como eu própria costumo dizer: os heróis estão todos mortos! 

A remar contra a maré, sempre! 

Não sei se por ser o último dia desta série de folgas decidi fazer tudo num dia só (ou talvez tenha sido só uma forma de mostrar a mim própria que ainda aguento o suficiente apesar dos anos passarem, ou se me cansar até me esqueço do resto)


Foram 7 km a remar da forma possível numa terra sem rio. À tarde dediquei-me à terra. Desbastei as ervas daninhas que o Inverno sempre faz nascer no quintal, preparei e espalhei as sementes. Agora é esperar para ver o que nasce ou se chega a nascer. A geada queimou as sementeiras de Outono, por esta altura tento sempre novamente, com os olhos postos no borda de água o meu manual para o quintal. Coentros, nabo, cenoura, feijão verde, pimenteiros e melancia para nascer com o Verão. Março trará mais culturas, mais desbaste de erva, novas sementeiras. Daqui até ao Verão é sempre a tentar, para ver o que nasce. 

Escusado será dizer que estou “morta”. Mas a vida continua e os meus esperam por mim. E eu cuido para que não me sintam a falta. O amor é sobretudo isto, penso eu. Cuidar para que nada falte quando for preciso. Feliz dia de São Valentim!