Posto isto …


Tenho andado, ultimamente, entusiasmada com o livro que estou a ler. Tenho cá por casa o Sentimento de Si há tanto tempo que nem tenho a certeza se já era mãe ou não, na altura em que o comprei. Lembro-me que nessa altura o meu compadre Fernando me falou no Erro de Descartes, do mesmo autor, e fiquei curiosa para o ler. Nesse tempo comprava livros como quem toma um café e lia-os com quase a mesma velocidade ( hoje isso é muito mais difícil) . Fui à procura do Erro de Descartes, mas não o encontrei, em alternativa acabei por comprar o , na altura, novo livro do mesmo autor. 

Sempre tive uma certa superstição que os livros são lidos na altura certa, como se fossem uma pré determinação da vida, assim na mesma “onda de frequência” de quem acredita no destino. Como se o livro que estamos a ler nos viesse dizer a coisa certa, no momento que necessitamos ouvir. De uma forma ou de outra um livro acrescenta-nos sempre qualquer coisa, é bom acreditar que nos vai acrescentar o que precisamos, no momento. Isto tudo para dizer que na altura ainda comecei a lê-lo, mas a minha pouca experiência como profissional, ou até mesmo alguma imaturidade fizeram com que ficasse logo no princípio. Não eram livros teóricos que me interessavam naquela altura em que ainda tinha os sonhos todos à minha frente. Lembro perfeitamente de o ter guardado e de pensar que um dia o livro ainda havia de ser lido. 

Esse dia chegou e realmente não há nada como a experiência de vida e a experiência profissional para nos fazer alterar os interesses e a forma como olhamos para determinados assuntos. 

É certo que já não consigo ler um livro com a mesma velocidade. São as refeições, a roupa, as tarefas domésticas, os deveres profissionais, os filhos que necessitam atenção, mil e uma coisas a fazer e organizar e quando chega a hora de ler, a maior parte das vezes pego no livro e caio para o lado de cansaço. Tenho que estar mesmo interessada para que o interesse se sobreponha ao cansaço, mas este livro tem despertado a minha curiosidade pela leveza em que fala de assuntos técnicos e que me abrem horizontes para uma área de que nunca gostei muito: a neurologia.  Percebo agora que esta minha desconfiança em relação à neurologia está desadequada já que sempre fui uma verdadeira admiradora das capacidades do cérebro humano e que tanto nas suas capacidades e potenciais, como patologicamente, o cérebro tem muita coisa maravilhosa escondida. Tanto emocionalmente como psicologicamente não deixamos nunca de ser um organismo biológico que evoluiu e evolui, quer no sentido lato, como no sentido metafórico, à medida que vai  acumulando experiências 

Curiosamente, a dor, que considero um dos mais poderosos determinantes do curso da evolução biológica e cultural, pode ser vista como uma ideia tardia da natureza, uma tentativa para resolver um problema depois dele se apresentar. Costumava pensar na dor como o colocar de trancas na porta de uma casa roubada, mas Pierre Rainville sugeriu-me uma metáfora melhor: o colocar de um guarda-costas à frente da casa, enquanto reparamos os vidros partidos. Ao fim e ao cabo, a dor não consegue evitar a lesão já estabelecida, mas consegue proteger o tecido magoado, facilitando a sua reparação e prevenindo a infecção. O prazer, por outro lado, é uma premeditação. Está ligado à antecipação inteligente do que se pode fazer para que não venha a surgir nenhum problema. A este nível básico, a natureza encontrou uma solução maravilhosa: seduz-nos para que nos portemos bem.


                       António Damásio, O sentimento de si , pág. 100