Uma espécie de poder 


Março está a ser um mês que não aquece, nem arrefece. Às vezes também faz falta tempos destes para nos dedicamos à introspecção. Gosto de pensar. De pensar na vida, nos porquês das coisas, no porquê de sentir o que sinto e de fazer o que faço. Talvez por isso por vezes demoro demasiado tempo a fazer coisas simples, como arrumações. Em casa onde vivem rapazes é sempre difícil estar tudo arrumado, senão impossível. Mesmo que lhes demonstre a necessidade de ter um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar também são as excepções que confirmam a regra e isto por aqui não é nenhuma prisão. Gosto que tenhamos tempo para nós e para conversar e se estiver sempre a repreende-los não crio os espaços possíveis para o diálogo. Talvez por isso mesmo gosto de me integrar nos interesses deles. Jogo os mesmos jogos de telemóvel e computador, interesso-me pelo futebol e pelo hóquei, deixo muitas vezes de parte algumas das coisas que gostaria de fazer, mas mais femininas, para poder ter tempo de qualidade com eles. Com a vida aprendi a colocar limites aos interesses deles e guardar alguns espaços para mim. Assim, ontem, como dia da mulher, foi um dia que reservei para mim e pedi-lhes que fossem ficar na casa do pai, só para poder ter a liberdade de fazer o que quisesse. O que é que fiz?? Eheh, colei-me à Netflix e vi um filme, já tinha saudades! De manhã combinei o pequeno almoço com uma amiga, daquelas que encontro poucas vezes mas que sempre que nos encontramos a conversa nunca tem fim. Foi o melhor dia da mulher de que me lembro, nos últimos anos. Recebi as flores da praxe ( o meu pai, desde que me lembro de mim por gente, que me oferece, todos os anos, sem excepção, uma flor) que por aqui é hábito ganhar até na rua. Lá trouxe para casa o habitual cravo vermelho e a gerbera ( este ano foi laranja e amarela) e pude usufruir da liberdade de fazer o que quisesse ao serão. Optei por ficar em casa. Cada vez me sinto melhor aqui e adoro esta sensação de descanso e conforto, quando estou em casa. Nem sempre foi assim. Lembro-me do tempo em que só conseguia ver coisas por fazer. Agora apenas vejo um espaço em constante optimização, que tem que ser limpo e arrumado para que nos sintamos cá bem, e é isso que tento transmitir-lhes: responsabilidade da manutenção de um espaço onde repousa tudo o que é nosso. Sendo que de nosso, o melhor bem é o tempo livre.