Tentar ganhar com o que não pode dar lucro

De todas as coisas de que não gosto no trabalho por roullement, já nem são as noites que me incomodam mais. Agora são os fins de semana. Os miúdos vão crescendo e com eles vão-se alterando as rotinas. Se até há bem pouco tempo as noites implicavam um esforço duplo para mim, que com a crise passou a ser muito pouco recompensado, mas necessário, porque sem turnos o meu rendimento mensal, tal como muitos dos enfermeiros da minha idade e mais novos, sem duplo emprego, não chega aos 900 euros – e só esse foi durante algum tempo o valor da minha dívida mensal – agora que os miúdos já estão mais independentes tornou-se muito menos penoso. Já o fim de semana é o tempo que eles têm livre para o desporto e que nos serve para conviver e acertar as agulhas. Mas o roullement implica isto e trabalhar das 8 às 16.30 todos os dias acaba-me com a paciência, porque apesar de já dormir muito melhor, são muito raras as noites em que consigo dormir uma noite de seguida, com a agravante de o meu relógio interno me acordar religiosamente às 6.30 e as manhãs, numa enfermaria, são os turnos com mais confusão. Um, dois, três dias está bem, mais que isso é tortura ( gosto muito de barulho e confusão, mas necessito dos meus momentos de paz e para isso não  há como um turno da tarde). Por vicissitudes inerentes ao meu serviço, os fins de semana têm estado desfalcados, não na quantidade de pessoas a trabalhar, mas na quantidade de pessoas disponíveis para trabalhar e na realidade a lei diz que temos que ter apenas um fim de semana por mês, regras que a minha nova chefe tenta cumprir à risca ( abençoadinha – estou a dar graxa estão a ver??!!!) mas que na realidade são muito pouco cumpridas por esse país fora. Fazer omeletes sem ovos é impossível e por muito bom que seja um chefe na arquitectura de um horário, fazer um roullement sem pessoal, é impossível. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, esse chefe vai ter que lidar com o burnout dos seus colaboradores, assim como todos os inconvinientes e problemas que isso vai gerar na equipa. E os inconvinientes que isso traz à vida do trabalhador, que por estar a fazer mais do que a lei lhe exige, às vezes a ganhar menos ( cortes no salário da função pública, diz-vos alguma coisa???) se vê imersa numa espiral depressiva que muitas vezes não tem um fim bonito de se ver. Cortar a direito como se as pessoas fossem números, como se desmotivados mas forçados os profissionais produzissem mais, provoca a longo prazo problemas que vão ser difíceis de resolver, nomeadamente uma geração de enfermeiros em fuga para o estrangeiro, profissionais experientes e anteriormente com responsabilidades na formação dos mais novos sem vontade de o fazer e pessoas com uma saúde mental periclitante, com todo o estrago que isso pode causar na relação com as outras pessoas. 

Na realidade, eu tive sorte. Consegui finalmente encontrar um serviço que se adequa às competências que fui adquirindo ao longo da carreira e onde a chefe se esforça por nos fazer um horário legalmente correcto ( depois de todas as aberrações que vi como horário, é-me muito fácil perceber, agora, quem se importava e quem fazia da forma que dava menos trabalho a quem o faz) . Para além do mais, neste serviço, além da relação interpessoal também posso ter o sossego, dependendo das situações que se me apresentam: fantástico. 

Dos tempos da urgência guardo, para além das boas recordações que tenho de muita gente, tudo aquilo que me ensinaram, eu que vinha dos cuidados a uma população com um tamanho (em cm) significativamente menor. Aprendi o bom, o que achava que devia aprender e percebi as diferenças, entre os cuidados em pediatria e os cuidados em adultos e muitas delas confesso-vos que não gostei. Embora nos empenhemos muito em salvar a vida de uma criança, a verdade é que a vida de uma criança não tem mais valor do que a de um adulto e as consequências do salvamento, se já sempre muito bem explicitas aos pais, no caso de uma criança, muitas vezes no adulto isso não acontece: salve-se! E a que preço??? E a vontade de quem é salvo, conta? Até agora essa decisão estava nas mãos dos profissionais. Se enquanto na pediatria à muito que se aprendeu a respeitar as decisões dos pais, nos adultos a família ainda interessa para muito pouco, e a pouca noção da realidade, em termos de cuidados de saúde, da população portuguesa, faz com que se pense ainda que é no salvar que está o ganho. Quantas pessoas, se lhes fosse dado a escolher, gostariam de viver com as limitações que os cuidados lhes impõe? Quantas, na realidade querem saber? Procura-se o erro, esmiuça-se até à exaustão o que foi e o que poderia ter sido, na ânsia de se encontrarem culpados mas ninguém pára para pensar no que realmente interessa: até que ponto estou interessado em sofrer para viver? Até que ponto é que vou conseguir realmente ser salvo? Acho que muito mais do que procurar culpas se deve, ao invés, fazer perceber que nem sempre é possível e que muitas vezes o custo é elevado. Mais do que o corpo, é a cabeça, a nossa cabeça, que dita quem ganha a guerra pela vida. 

Somos peritos em pensar no curto prazo, em colocar as trancas à porta quando a casa já foi assaltada, daí o investimento feito neste país em cuidados hospitalares. A prevenção é uma coisa que simplesmente se faz como utopia. Mais uma vez a escassez de meios, por si só já escassos, influencia a qualidade do trabalho. Felizmente a nova geração de médicos está bem mais desperta para a necessidade da prevenção e sobretudo para a necessidade de dar qualidade de vida a quem já não pode ficar melhor. 
Também eu arranjei uma “companheira”, dessas que não me vai deixar ficar melhor, enfim, irei com ela para a cova ou vice-versa. A custo de conhecer o meu corpo e da insistência dos “miúdos drs” ( isto é carinhoso ok!?) foi diagnosticada na fase inicial, ainda sem alterações visíveis do órgão afectado,  o que significa que se me “portar” bem e tomar a medicação, não morro disto. É bom, muito bom, ter sido apanhada assim. É mau, muito mau, ser consequência do stress a que fui sujeita. Confesso que me custou a convencer que vou ter que ser consumidora de comprimidos para o resto dos meus dias, mas passada a fase de conformação, fiquei, muito à moda portuguesa: podia ter sido muito pior e ainda tive sorte! 

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