A verdade vem sempre à tona

Andei à procura e não consegui encontrar ainda nada escrito na imprensa. Ouvi agora na rádio que o SEP não vai aderir à greve. Sinceramente deu-me vontade de rir. Apesar de já ter desistido de explicar o porquê de me ter descindicalizado a alguns dos meus colegas que continuam a não querer ver, adoro ver quando não necessito de dizer nada.  A verdade e as acções só por si, bastam. 

Talvez muitos não conheçam bem a história e a outros não lhes interesse compreende-la, a verdade é que o SEP anda a lixar a carreira aos enfermeiros desde o ano 2000. 

É indiscutível o papel que este sindicato teve no desenvolvimento da enfermagem como profissão. Eu fiz-me enfermeira já no fim destes anos de ouro, quando o SEP conseguiu fazer da enfermagem uma profissão. Não discuto essa verdade e nem sequer a competência com que o fizeram. Quando acabei o curso e uma vez que rumei de terras de Coimbra até ao meu Alentejo a decisão mais lógica era sindicalizar-me no SEP, o sindicato mais representativo dos enfermeiros e até, descobri depois quando vim ainda mais para Sul, o único que se conhece por esta zona ( desconfio que há por aqui muito bom enfermeiro que achava que não existia mais nenhum).  Descindicalizei-me em 2009 quando me fartei de ser carneira. 

 Eu sou do “curso danado” o último curso de bacharelato que existiu neste país. Os colegas que saíram depois já tiveram a oportunidade de ficar mais um ano se quisessem sair já com o grau de licenciatura. Foi assim que ingressei na carreira sendo absolutamente nada. Nem tinha experiência prática, os anos que nos aprimoram os conhecimentos que trazemos, nem era licenciada, na altura “os miúdos” de quem toda a gente tinha medo que viessem para aí com ares de doutores e a ganhar mais do que os que já cá andavam há muitos anos. Foi quase unânime a ideia de que isso não poderia acontecer. Tínhamos que ser todos iguais! Ou ganhavam todos ou não ganhava nenhum! Na altura a ideia fez-me confusão e lembro-me de conversar muitas vezes com os meus colegas sobre o assunto que não me fazia sentido nenhum. Quando fôssemos todos licenciados logo se actualizaria a carreira.  A questão é que não somos nem nunca vamos ser todos iguais ( a igualdade confunde-se muitas vezes com equidade que é uma coisa diferente e muito mais justa). Lembro-me de ter pensado na altura: isto vai correr muito mal…Sempre comparei muito o desenvolvimento da nossa carreira com a dos professores. A minha mãe foi professora primária, tinha o bacharelato do magistério primário e quando veio a possibilidade de se licenciar disse sempre que não queria. De certeza que nós enfermeiros nunca seríamos todos licenciados, estávamos portanto a partir de um pressuposto errado e a deixar que nos atirassem areia para os olhos. Como não era nada naquela altura a minha voz foi como o silêncio e era do consenso geral da maioria dos enfermeiros que conhecia, que assim como se fez é que era o correcto.

Enquanto os professores se foram licenciando e foram sendo recolocados na carreira os enfermeiros, em 2017, ainda esperam ser remunerados como licenciados . Já passei mais anos na faculdade e em escolas superiores do que a maioria das pessoas deste país, às minhas custas, e ainda assim, continuo pacientemente à espera que me reconheçam esse valor, como funcionária pública e como profissional. Não eu não quero ganhar mais do que nenhum médico ( cada macaco no seu galho) quero ganhar o que me é devido. Não tenho culpa é de fazer muitas horas extras, porque são necessárias, e de já cá andar há quase vinte anos a quererem que trabalhe como se tivesse ainda vinte e poucos anos de idade, portanto, se for recolocada na carreira a fazer a quantidade de turnos e horas extras que faço, provavelmente ganharei muito mais do que um médico que só trabalhe nas instituições públicas – mas nós sabemos que são muito poucos, esses. Tal como os enfermeiros, que não pagam contas com um mísero ordenado de 1100 euros, como o meu. 

Mais uma vez uma questão de equidade. A hora médica não deixará de ser melhor remunerada, a diferença está na quantidade de horas nocturnas ( chamadas horas de qualidade) realizadas. Enquanto um médico é obrigado a fazer 24h extras por semana ( os chamados “bancos”- penso que seja este o número de horas obrigatórias) e muitos fazem muitas mais mas ganham por elas ( mal e porcamente diga-se de passagem – não cabe na cabeça de nenhum ser humano inteligente deixar alguém fazer 24h de trabalho seguidas quando o que está em causa são vidas humanas e ninguém aguenta uma vida inteira nisto – mas é o que temos) os enfermeiros fazem turnos rotativos, completamente desorientadores dos ritmos circadianos, ultrapassando muitas vezes as 24h nocturnas por semana e, no meu caso, a ganhar como licenciada, se me compararem com um médico em início de carreira, sim, ganharei, provavelmente mais. Acham injusto?

Foi quando me obrigaram a trabalhar ainda mais horas a ganhar menos que desisti do SEP. Uma boa memória sabe que estas duas negociações decorreram durante a vigência de governos socialistas. Uma pessoa informada sabe que o SEP é afecto à CGTP. Podia dizer-vos para tirarem as vossas próprias conclusões mas como sei que muitos jovens não vão conseguir ver nada no que acabei de dizer eu faço um desenho mais explícito.

Um sindicato é uma associação de membros de uma determinada profissão, serve para defender os direitos laborais desses profissionais. Quando os sindicatos começam a dar mais valor às lutas político-partidárias do que  à qualidade de vida dos seus associados alguma coisa está muito errada e com certeza que não são os profissionais. Este é um caso tão evidente da agenda política do SEP que até dá náuseas. 

Acrescentaria aqui um pouco da política do medo usada pelo SEP nos últimos anos em jeito de ironia: olha, aquilo que ganharmos com esta luta será só para nós, os associados do SEP que não aderirem à greve não deverão ser beneficiados com a luta dos outros! 

Agora a sério, o direito à greve está expresso na constituição da República. Qualquer trabalhador tem direito a fazê-la esteja ou não sindicalizado, faça ou não o sindicato a que aderiu parte dos sindicatos que  organizem a greve. Basta haver um pré-aviso de greve por um sindicato quer seja de uma profissão específica quer seja de um grupo profissional como por exemplo os funcionários públicos para um profissional enfermeiro e funcionário público poder fazer greve.

Liberdade também significa independência para tomar decisões, qualquer decisão, independentemente de qual seja o vosso sindicato ou partido de eleição. Informem-se, leiam e tomem as vossas decisões, não se deixem iludir por outras prioridades ou outras agendas que não sejam o vosso bem estar ou o bem comum. Só depois tomem decisões.

 Medo de represálias, nunca mais! 

Adenda: bem podem vir para aqui chamar-me feia, porca e má, que eu sei que sou não preciso que me digam. Reservo-me ao direito de apagar aquilo que eu quiser porque este espaço é meu, fui eu que o paguei e quem o gere sou eu, além disso tenho menores em casa que gostam de ler os disparates da mãe e não quero sujeitar os meus filhos ao contacto com gente mal educada, sim! Mal educada ( e esta é a minha veia de “tia” a falar.
Tenho dito!