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Gripe? Mas qual gripe?

Resisti estoicamente a ver as imagens porque sabia que iria sentir o que realmente senti. Coisas que sinceramente me apetece esquecer. Ao vê-las senti a identificação e o desespero a crescer, novamente, dentro de mim. Só quem passou por isso sabe o que é, com a agravante de que os serviços de urgência são serviços de “ninguém”. A maior parte das equipas médicas passa por lá um ou dois, no desespero três dias por semana, mas nós, os enfermeiros ficamos e vamos sentindo o desespero, a falta de segurança, a falta de esperança na resolução dos problemas, um dia atrás do outro. E isto não é a realidade do hospital x ou y, é a realidade de todos ou quase todos os hospitais públicos do país. Sim! Todos, só que se fala mais em alguns lugares do que noutros.

Não existem redes de apoio aos idosos, de tal forma que se transformaram as UCC’s, que deveriam ser centros de recuperação, em autênticos lares de luxo onde, por questões de financiamento, se obrigam os doentes a fazerem percursos entre essas instituições e os hospitais quando já pouco ou nada há a oferecer a essas pessoas, a não ser o conforto que não se lhes dá ao obriga-las a andar para trás e para a frente. ( instituições “para Inglês ver” que não são nada daquilo que seria suposto serem) .

Num tempo em que se fala tanto em dignidade humana, em cuidados de proximidade e em conforto houve alturas em que, juro, senti que estava impotentemente a ser conivente com o genocídio dos nossos idosos. Sem nada para lhes oferecer para além do conforto assisti à desistência e à morte às mãos de cuidados curativos desnecessários que só fizeram aumentar o sofrimento e umas horas na vida de muitos.

Não há quem decida, não há quem queira decidir. Abandonam-se as pessoas nas mãos dos cuidados de saúde quando o que precisam é carinho e de quem lhes dê valor e atenção. Claro que para uma geração que não aprendeu a lidar com a morte é muito mais fácil entregar a dor do sofrimento nas mãos de quem promete ajudar. Mas a ajuda já não tem mãos a medir e não é omnipotente. Ser médico não é ser Deus, ser enfermeiro não é ser anjo embora acredite que muitos de nós gostassemos de o ser e soframos na consciência não ter essa capacidade, porque muitas vezes é isso que esperam de nós.

A morte existe e vai existir sempre, o Alfa e o Omega, e agora morre-se em piores condições porque se vive mais tempo e porque o acesso universal aos cuidados criou nas populações a expectativa de ter sempre quem cuide por si.

Os serviços de urgência estão cheios, como sempre estiveram desde há alguns anos a esta parte. O pico da gripe é uma invenção mediática para justificar o que só se justifica porque o sistema entope nos cuidados curativos. Não há apoio social suficiente, os idosos, que são em grande número e serão bem mais na minha geração, não têm para onde ir. As famílias têm que trabalhar, a mulher, cuidadora oficial da família, não tem hipóteses de sobrevivência se não trabalhar também, e a bola de neve cresce e esbarra no local mais fácil de esbarrar, na urgência de um qualquer hospital que nos dias de hoje serve para tudo: para curar uma febre, para salvar um traumatizado, para tratar um enfarte e para depositar idosos que não têm quem cuide deles, não têm lugar num lar e já não conseguem tratar de si mesmos.

Onde fica a dignidade no meio de tudo isto? O desespero de querer fazer e não poder é enorme e vai trazendo e fazendo sequelas nos profissionais. A cultura do silêncio é uma realidade e os que ousam falar são vistos num misto de desprezo e fascínio mas ainda assim a maioria dos profissionais cala a grande quantidade de atentados à dignidade humana em que é obrigado a participar.

Sim, porque a solução não parte de exigir mais aos profissionais, não é dos profissionais a culpa mas dos decisores. Daqueles que arrastam estas situações anos e anos a fio sem ir à raiz do problema.

Não tenham dúvidas, o problema deste país é um problema social, demográfico. Não há instituições de apoio aos desprotegidos e exige-se que as pessoas trabalhem, tenham famílias, cuidem delas. Sem condições económicas, sem estruturas de apoio, sem nada. Apenas façam. Enquanto na Assembleia da Republica se comem refeições ao dobro do que o comum dos funcionários públicos come, enquanto as associações recebem do nosso dinheiro para prestar serviços que deveria ser o estado a prestar, sem prestar contas a ninguém e enchendo os bolsos à conta do desespero de muitos, não há solução possível para nós e vamos continuar a assistir ao genocídio dos nossos idosos. Pessoas não são números. O pagamento das dívidas não pode ser o intuito de uma governação. É claro que tem que se pagar o que se pediu. Andaram outros tantos como nós a trabalhar e a pagar impostos por essa Europa fora para o dinheiro chegar às nossas mãos. Não caiu do céu. É fruto do trabalho de alguém. O que não se pode é deixar que quem não faz nada condene ao desespero e à indignidade quem trabalhou uma vida inteira para poder viver. Porque senão o estado social é uma falácia, não funciona e mais vale ser cada um por si e Deus por todos

Não vale a pena reinventar a roda quando ela já existe há muitos anos. É um problema político é um problema de falta de visão é um problema estrutural que ninguém quer resolver. E enquanto os portugueses gostarem de ser enganados, não há nada a fazer. Não, não estamos melhores do que em 2013, com a agravante de estarmos todos muito mais cansados. É isto!

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