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Viagem no tempo

O aborrecimento é uma chatice e hoje para além de cansada e engripada, com a garganta inflamada e dores no corpo, ainda estou aborrecida.

Leio nos blogues que frequento que fazem hoje 110 anos desde que perpetuaram o regicídio que é como quem diz, fazem hoje 110 anos desde que nos mataram o rei D. Carlos.

Maganos!

Não sei o que teria acontecido se não o tivessem matado, mas não sou assim tão fã da República que ache que os fins justificaram os meios. Pobre D. Carlos, sabia lá ele o que seria ter fome quanto mais o que o povo passava…

Nem por isso devemos ter ficado muito melhor. A história da 1 República não é coisa que nos fique na lembrança, do tempo da escola, e de tudo o que tenho lido, foi tão bom tão bom que desembocou em ditadura – o tal povo que nem se governa nem se deixa governar.

No último turno que fiz, no despertar de um meu doente com a bonita idade de 85 anos, já nem me lembro como lá foi parar a conversa, mas terá sido fácil, porque eu também falo pelos cotovelos, dizia-me ele que a primeira vez que calçou uns sapatos tinha 14 anos.

Às vezes ponho-me a pensar nestas coisas e vejo a que mundos de distância estamos desse tempo.

A minha avó Vicente, se fosse viva, faria este ano 110. Nasceu em 1908, embora só tivesse sido registada em 1910 e era essa a data que figurava no seu BI. Roubaram-me 2 anos dizia-me ela, até que um dia lhe perguntei porque raio se roubavam anos às pessoas. Muito simples. As crianças tinham que ser registadas ao nascimento, mas vir à vila ou à cidade era coisa de luxo, para além de ser distante. Nascida para os lados de S. Francisco da Serra no ano em que o 1° Ford T que existiu em Portugal veio para Santiago do Cacém ( lembro-me de ter lido em qualquer lado a dificuldade que o conde do Bracial teve em trazer a máquina até cá) imaginem o que seria vir a pé ou a cavalo (que nem todos os tinham – um carrinho de mulas, vá, e já iam com sorte) só para vir registar uma criança. Nem pensar. E como se pagava multa pelo registo em atraso, todas as crianças teriam obrigatoriamente que nascer no ano em que eram registadas. Foi assim que a minha avó ficou para a história como tendo nascido no ano da República. Mentira, foi no ano do regicídio.

Aos 3 anos guardava cabras e ovelhas. Descalça, claro. Casou-se com um ferreiro já a passar os 30 ( velha para a altura) e nunca chegou a ter filhos. E como raio é que é minha avó se não teve filhos? Bom, foi ela que criou a minha mãe, sua sobrinha, e eu não conheci outra avó daquele lado e por tudo o que fez por mim merece esse carinho e muito mais.

Falávamos horas a fio e devia ter uma pachorra inata para me aturar e a todas as minhas dúvidas e questões. Deve ser por isso que sei tanto da vida dela e de como era a vida na altura dela.

Fez em Janeiro 22 anos que faleceu.

Aprendeu a ler sem nunca ir à escola e isso era a coisa que mais me fascinava. Tinha uma rapidez de cálculo maior do que a minha ( sou um bocadinho lenta em cálculo mental, mas ela era muito inteligente) e uma perspicácia fantástica. Foi a única pessoa a quem eu nunca consegui esconder nada ( e nisso eu sou muito melhor do que me julgam 😁) . Enfim, às vezes gostava que conseguissem acabar rápido os cálculos necessários entre a massa, a energia e a velocidade, para encontrarem um acelerador de partículas que nos permita desafiar o tempo e voltar para trás. Só para a poder ouvir outra vez…

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