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Sonhadores involuntários

Sou absolutamente fã da contemporânea escrita africana de expressão portuguesa. De Mia Couto a José Eduardo Agualusa, passando por Ondjaki – uma poética que me fascina, os neologismos, a utilização prática da língua, rompendo com a estética complicada dando vida e musicalidade à linguagem, como se o meu alentejo e as suas vozes e raízes se estendessem às longínquas terras do calor, a terra e o sol abraçassem o sonho. Mal comparado diria que o fascínio que sempre senti pela literatura sul americana, como se aquela fusão entre o real e o surreal, se tivesse, nos nossos dias, mudado para a África de expressão portuguesa.

Acabei agora de ler a sociedade dos sonhadores involuntários e sinto-me como se viesse à boleia da onda, esperando que ela se prolongue pela praia e não termine. Sinto-me sempre consolada depois de um destes livros…

” Querido Daniel,

Os antigos gregos, como os chineses ou os hebreus, não tinham uma palavra destinada a designar a cor azul. Para todos eles o mar era verde, acastanhado ou cor de vinho. Eventualmente negro. Na pintura ocidental o mar só começou a ser representado a azul no séc. XV. Também o céu não era azul. Poetas descreviam-no como rosado, ao amanhecer; incendiado, ao lusco-fusco; leitoso, nas melancólicas manhãs de Inverno.

Talvez sejam os nomes a dar existência às coisas. Não é o que afirma a bíblia? ” No princípio era a palavra e a palavra estava com Deus e a palavra era Deus.”

Imagino uma sociedade secreta de poderosos demiurgos. Vejo-os atravessando os séculos, confundindo-se com as multidões, na sua fantástica missão. Eis que vão de povoado em povoado, disseminando nomes nas mais diversas línguas e, à medida que essas línguas se enriquecem, o universo vai ganhando cor e complexidade.

Contrariando a tese acima, sinto que acontecem na minha alma, frequentes vezes, um tumulto de sentimentos nunca nomeados. Talvez se tornem comuns, daqui a muitos anos, quando alguém lhes der um nome. Entretanto, sou como um pintor que, em plena idade Média, escolhesse um certo tom de azul para colorir o mar. Isto antes de existir a palavra azul. Antes de existir a cor azul. Contemplando as telas desse pintor, olhando aquelas ondas de uma cor impossível, as pessoas não conseguiriam esconder a estranheza e o horror. Imagino que se soubesses o que vai no meu espírito também tu experimentarias náusea semelhante. Tu e todos os outros.

Sou alguém que chegou cedo demais. Imagina uma mulher passeando entre dinossauros. Sou essa mulher. Um monstro – diriam os dinossauros.

Acordei hoje com esta certeza e queria partilhá-la contigo antes da tua chegada. Recebi os teus poemas. Não sou a pessoa que estás inventando neles ( inventamos sempre as pessoas que amamos). É mais complicado: sou uma pessoa que não poderias inventar. Estou além da tua imaginação. No entanto gostei dos poemas. Gostei de me sentir, por instantes, essa outra mulher que te inspirou.

Beijos,

Moira”

Capítulo 21, A sociedade dos sonhadores involuntários

José Eduardo Agualusa

Tão mas tão bom, tão eu que quase nem dá para acreditar…

Aconselho.

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