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Serviço público sobre a história deste país

Da página de Facebook do Diário do Alentejo retirei este artigo com os devidos créditos. ( Infelizmente a página on line não está a funcionar e estamos a ajudar o facebook, com este aproveitamento do facto de ser livre de custos, a comandar a nossa vida. São eles que controlam os algoritmos, ok pessoas? Portanto nós, ou somos espertos, ou vemos o que eles querem que vejamos. Toca a por essa página on line rapidinho!!!!)

“Raul Martins Costa passou 15 dos seus 90 anos na clandestinidade

Raul Costa nunca abanou só a cabeça. Sempre manteve um espírito revolucionário, participativo e interveniente na sociedade. Postura que o levou a trabalhar para o Partido Comunista Português durante mais de 15 anos na clandestinidade, criando as condições para outros responsáveis do partido passarem pela bruma da polícia do fascismo. À qual nem sempre conseguiram fugir. Nem ele. Ele e a família. “A Maria aderiu primeiro ao partido”. De Grândola correu o País, principalmente o norte, e usou nomes falsos para dar cobertura e preparar as casas de apoio. Em simultâneo imprimiu todos os jornais e panfletos comunistas. “Só não fiz o ‘Camponês’”.

É com um especial carinho que Raul Martins Costa, hoje com 90 anos, fala da sua companheira de 65 anos de vida, 15 dos quais a viver nas duras condições da clandestinidade durante os tormentosos anos do fascismo em Portugal. Deram esse passo em conjunto em 1958 e assim permaneceram até ao 25 de Abril de 1974. “A Maria foi primeiro contactada pelo partido, talvez porque trabalhava para um médico que foi tarrafalista, Manuel Reis, com ligações do PCP, que tinha consultório instalado em Grândola”.
Raul Costa começou a colaborar “com o partido ainda antes de ser militante, nas lutas com agricultores e corticeiros”, ações que em Grândola tiveram forte expressão, ficando registada a participação nas lutas para assegurar as oito horas diárias para os trabalhadores agrícolas. Aos 23 anos é recrutado para o MUD Juvenil. Em 1952 foi preso, pela primeira vez, por estar a recolher assinaturas pelo Tratado de Estocolmo. A detenção “aconteceu junto ao café do José Filipe, aqui em Grândola, e fomos responder no Tribunal da Boa Hora”.
E, claro, foi parar à prisão. No Aljube passou três meses sem que a família soubesse onde estava e a sentença determinou a condenação a seis meses de perda de direitos políticos e o pagamento de 15$00 por dia. “Esta passava por ser a parte mais fácil, porque dinheiro era o menos, e não havia nessa altura, para a minha luta já não havia direitos políticos, pelo que a decisão do tribunal era irrelevante”.
“Na altura em que fui preso levei alguma porrada, porque fui apanhado com documentos para a angariação de fundos para os presos políticos, não tinha organização, era individual, não era militante do PCP e nos interrogatórios a PIDE só queria saber se estava ligado ao PCP”, refere Raul Costa, que esteve uns tempos afastado do MUD Juvenil.
Como para tudo há uma técnica, “o camarada Manuel Rodrigues da Silva ensinou-me a forma e a técnica para melhor resistir aos esbofeteamentos sem correr o risco de partir os dentes”. Embora Raul frise que o chamado inspetor Varatojo conseguiu esse feito.
A adesão ao PCP ocorre em 1958, ficando com a responsabilidade da distribuição da imprensa do partido no agora chamado litoral alentejano. “A ligação de Grândola na altura era muito mais com Setúbal”, distrito a que ainda pertence e “para onde a população mantém a tendência, até pela escassez de transportes públicos para a restante região do Alentejo ao contrário da ligação à península”. A sua participação política no tempo da ditadura é ilustrada pela influência familiar e também pela “vontade em mudar o rumo dos acontecimentos”. “Recusei ser como o boneco do Zé Manaças, comerciante de Grândola, que só abanava a cabeça. Havia muitos que gostavam. Eu nunca gostei”, diz.
O salto para a clandestinidade aconteceu precisamente para a península quando foi organizar uma casa clandestina em Almada, por onde passou o dirigente Blanqui Teixeira. Raul Costa recorda com precisão: “Saí de Grândola no dia 22 de março de 1958, não me esqueço porque é o dia do meu aniversário, e quem me acompanhava na ligação do partido era o camarada Joaquim Gomes”.
Nesta coisa de andar fugido à polícia, ainda mais em ditadura, quanto menos tempo num sítio mais fácil é a sobrevivência, pelo que a viagem de Raul Costa segue para Lisboa, para a rua de Campolide, onde conhece João Honrado, alentejano de Ferreira do Alentejo e que também colecionou uma série de recordes das prisões da PIDE, da atividade política clandestina, da responsabilidade partidária posterior à Revolução e cujo cunho humanista nunca será demais lembrar e enaltecer, com júbilo para quem teve o benefício de com ele privar.
Tantos são os locais como os nomes de dirigentes comunistas que se cruzaram com Raul Costa. A romagem a norte levou o casal a Ovar, Porto, Maia, Gondomar, Vila Nova de Gaia, Baltar, mera indicação de nomes sem que seja esta a ordem cronológica da viagem clandestina. Junto ao Estádio das Antas cumpriu a tarefa de arranjar uma casa que serviu para acolher o dirigente Pedro Soares depois de fugir do Forte de Peniche.
Por esta altura, e na maioria dos casos agora também, os militantes dos PCP não são homens de uma só tarefa e Raul Costa começou, em Baltar, a dedicar-se à impressão dos documentos do partido começando pelo “Militante”. Na ocasião partilha a casa com a irmã de Sophia, Georgete Ferreira, em Matosinhos, então a responsável pela tipografia partidária. A forma como Raul fala, com respeito, ternura e o à vontade da camaradagem sobre uma das maiores poetisas portuguesas de todos os tempos é uma leve impressão dos ambientes vividos nos tempos da clandestinidade em tempo de ditadura. “Havia reconhecimento, respeito e solidariedade pela tarefa de cada um, sem ninguém puxar de galões por dá cá aquela palha”.
Com a cobertura da profissão de sapateiro, e para arranjar algum dinheiro para garantir a subsistência da família, Raul Costa, de cada vez que saía de casa, despedia-se “da Maria, tanto era o receio de não regressar”, e a estratégia definida passava também por evitar contactar pessoas conhecidas, em particular de Grândola, a terra natal de ambos. “Para não nos comprometermos e também não colocarmos em risco quem connosco convivia. Se fôssemos identificados e referenciados, quaisquer pessoas que se relacionassem connosco poderiam ser pressionados pela polícia”.
Naquele contexto, Raul Costa refere também “os cuidados e a verificação que éramos obrigados a fazer para os contactos recentes, quem conhecíamos de novo, porque há verdades que não podem ser ditas a toda a gente num ambiente de perseguição política e de vida em clandestinidade”.
“Andei sempre com as ferramentas de sapateiro, oficialmente dei a profissão de modelador e cortador de calçado, adotei o nome de Saul, natural de uma terra que ainda hoje não conheço”, realça Raul Costa, o que não deixa de ser um paradoxo para quem andou por tantas casas, caminhos e localidades. E por várias vezes até teve que fugir da “própria sombra”. A dificuldade de quem vive sob identidade falsa e se dedica a atividades consideradas subversivas pelo regime político vigente na altura, tentando escapar pela rede de vigilância da polícia política, “feita de muitos informadores que hoje alguns, sem nós sabermos, se podem sentar à nossa mesa”, é um exercício complexo de dissimulação e de “tentar manter uma vida normal, sendo isto o que é”, sublinha, com alguma emoção, Raul Costa.
Habituado a deambulações, mesmo depois da Revolução de Abril, Raul Costa continuou a sua ligação ao PCP e manteve-se pelo norte do País, tendo trabalhado nas organizações do partido em Coimbra, Moimenta da Beira, Viseu, Tabuaço, Lamego.
A memória aos 90 anos já surge com mais dificuldades e Raul Costa não consegue referir em quantas casas andou, considerando as que organizou antes do 25 de Abril de 1974 e as que conheceu já em liberdade pelos concelhos onde desenvolveu a atividade do partido. É uma cartografia de uma viagem com retorno. De muitos silêncios. E compassos. Vive hoje na sua terra de nascimento, onde há escassos meses o seu partido de sempre organizou uma festa de aniversário pelas 90 primaveras. No centro de trabalho, claro.

Texto e Foto Rafael Rodrigues

Aqui

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1766874930071312&id=106388969453258

Estas são as histórias que formam a nossa história. Quer gostemos mais ou menos, nos identifiquemos mais ou menos com elas, muito mais do que contos infantis foram estas histórias de gente de carne e osso ouvidas tantas vezes à sucapa, porque não eram coisas de crianças, que povoaram o meu imaginário durante a minha infância e adolescência. Foi a tentativa de estudo daquele que será para mim sempre O partido, embora não me identifique com a filosofia, que me abriu os horizontes à vertente humana e artística da vida, à necessidade de fazer ouvir a nossa opinião, à luta contra a opressão e o estigma; que me aguçou ainda mais a procura do porquê das coisas, da necessidade de conhecer o lado de quem pensa de forma diferente e respeita-lo. É a melhor oposição que faz o melhor governo e este é o princípio base da democracia. Homens e mulheres, muitos alentejanos, viajaram durante décadas em busca da liberdade de pensar, da liberdade de escolher, do direito de ter opinião. O melhor que podemos fazer por eles e pela sua luta é respeita-la, partilha-la, dar a conhecer ao mundo o que podem fazer um homem e uma mulher comuns.

Passaram décadas sobre o tempo da dissimulação, necessária à sobrevivência de então. Para além das indicações de cada partido ficaram sobretudo a retidão das pessoas e o tempo encarregou-se de, independentemente do pensamento de cada um, separar o trigo do joio.

Cabe à minha geração, fechar a porta da história e inscreve-la nos murais da democracia. Podemos e devemos aprender uns com os outros, misturar conceitos, aproveitar o melhor dos melhores. Podemos e devemos partilhar as histórias de luta que, sem ser armada, foi por isso ainda mais digna, ainda mais dura, ainda mais longa. É o Homem comum que faz a história de uma nação, são os homens bons que fazem a diferença e ficam na memória do povo! São estas as histórias que fazem parte da minha história e já agora, dos meus genes também.

Eis o braço esquerdo da minha família

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