Um até sempre

Dita-me a minha consciência o dever de prestar a última homenagem e de vos comunicar o falecimento do meu primo José Raposo Nobre que mantinha há vários anos o blogue Viver Alvalade.  Com os seus 88 anos, o primo José, de espírito jovem, actualizava frequentemente o seu blogue dando conhecimento aos Alvaladenses e portugueses espalhados pelo país e pelo estrangeiro as novidades deste canto do Alentejo. 

Quando escreveu o seu último post há 6 dias, estava longe de imaginar que seria o último. Ele e nós.

 Apesar de casado com uma prima minha foi através da blogosfera que melhor o conheci. Fã da minha poesia, sempre que me encontrava insistia para que voltasse a escrever poesia, lembrando-me sempre que o meu livro era o seu livro de cabeceira. 

Não deixou nunca que as novas tecnologias o assustassem e usou-as para se aproximar de nós e do mundo. Um exemplo para a sua geração e para a minha. 

Hoje a blogosfera ficou mais pobre, eu fiquei mais pobre, a minha família ficou mais pobre, Alvalade e o Alentejo ficaram mais pobres. Porque são necessárias as pessoas que nos ligam às nossas raízes, às nossas tradições. São elas que nos lembram o que somos e evitam que sejamos engolidos pela globalização.

Um até sempre meu primo e bem haja por todo o incentivo que sempre me deu. 

O senhor o receba na luz da sua presença

A memória e os seus inúmeros problemas

Filha de professora primária diria que sempre fui muito chegada aos livros. Não só por todos aqueles motivos que os filhos de professores conseguem entender, mas que são difíceis de explicar, mas também porque de facto sempre gostei muito de ler. 

Embora sempre tenha gostado muito de possuir os meus próprios livros, as bibliotecas são sempre uma espécie de mundo novo para os amantes da leitura. A velhinha biblioteca da Gulbenkian, a funcionar no mesmo edifício onde funcionavam os serviços administrativos escolares onde a minha mãe se dirigia muitas vezes, tinha um cheiro muito particular:  uma mistura muito própria de cera de soalho de madeira, pó e papéis velhos, em proporções que criaram em mim uma memória olfactiva inesquecível. Nessa altura havia também a vertente itinerante de onde eu conseguia “sacar” banda desenhada sem ser demasiado assaltada pela lógica da minha mãe, que nunca foi grande fã de banda desenhada. 

Em ’89 ( foram uns anos tremendos de inovação para nós, esses anos: a Ludoteca, a Biblioteca, mais tarde as piscinas municipais) inaugura o edifício da biblioteca, novinho em folha, com livros e livros e livros, janelas enormes com muita luz, uma zona só dedicada aos mais novos, videoteca onde podíamos ver filmes, ouvir música e aquela “coisa” de não podermos fazer barulho, que nos dava ainda mais vontade de rir do que o normal…logo eu, que tenho um sorriso/riso bastante discreto. Inesquecíveis aquelas tardes de calor, numa casa fresquinha e a cheirar a livros novos. 

De tudo, o que guardo com mais carinho foram as horas que passei a ler os livros da Mafalda. Como já disse, em casa não havia grande espaço para a banda desenhada. Devorava “livros aos quadradinhos” do Walt Disney, nessa altura ainda só em versões da  Morumbi (se a memória não me falha era este o nome, depois Abril) num português do Brasil,  que me habituei a ouvir e ler desde os 6 anos ( os livros eram baratissimos, e era uma boa forma da minha mãe me calar por algum tempo – esperta ela!) Mas banda desenhada a sério, só quando abriu a biblioteca. Devorava os livros da Mafalda, lendo e relendo vezes sem conta para entender as piadas que me passavam ao lado ( eu sabia que estaria por ali algo irónico, só não conseguia entender o quê, algumas vezes) e os livros do Asterix, que sempre foram os meus favoritos. 

Com o crescimento veio a utilização do espaço para o estudo e para os trabalhos de grupo ( talvez não tanto como outros da minha geração porque o 10°, 11° e 12° anos foram passados a estudar fora, mas o suficiente para o local fazer parte da minha história pessoal) . Tal como eu, tal como a minha geração, todas as que vieram depois têm vida, dentro daquelas paredes. 

Guardo a descrição do local para quem tem sobre ele direitos  ( http://www.cm-grandola.pt/pages/564)

Eu percebo que o edifício necessite de melhoramentos. A vida mudou, o mundo mudou, as gerações mudaram e é necessário que as bibliotecas se adaptem, até pelo bem do livro, da leitura e dos miúdos que necessitamos incentivar. Nisso aplaudo de pé toda aquela equipa, que se tem renovado ao longo dos anos mas continua sempre com um trabalho de uma qualidade impressionante. Não esquecerei nunca o apoio e a motivação que me deram quando lancei o meu livro, um momento de deveria dizer agora que foi inesquecível, mas que infelizmente o meu terror por palcos me fez apagar da memória, tendo eu guardados apenas alguns flashes do momento ( toda a gente diz que foi bom, e essas memórias e carinhos guardo de coração cheio) 

O que eu não entendo é a necessidade de destruir para fazer de novo. Esta necessidade de alguns, de cortar com o passado para dar aspecto de moderno é desesperante. Talvez por isso, esta geração chamada “rasca” ( principalmente esta geração, os quarentões e trintões de hoje) se tenha movido para evitar que apaguem memórias que guardamos com carinho, que se apaguem memórias que fazem parte da história da nossa terra, mesmo que não a queiram considerar património histórico e cultural. Não, não é política, é lógica e bom senso: é um edifício típico, com uma utilização necessária ( diria essencial), não tem porquê destrui-lo. 

Este é o meu contributo para a causa. Ajudem-nos a sensibilizar os eleitos, com assento na assembleia municipal,  para que votem contra a destruição daquele edifício. Por favor partilhem e assinem a petição 

 http://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT87429

 E gostem da página no Facebook

  https://www.facebook.com/PreserveCasaBarahona/ 

Só todos juntos podemos fazer a diferença e nós não queremos que apaguem a nossa memória 

Obrigada! 

#PreserveCasaBarahona

 https://youtu.be/PBzehjB30to

Requiem for a lover

Às vezes, por motivos inimagináveis, há músicas, que nos marcam logo da primeira vez que as ouvimos. Esta foi uma delas. Porque ainda hoje ando a tentar compreender o que me prende a esta terra que tanto me ensinou, tanto me deu e tanto me tirou…

Em contagem decrescente para virar, finalmente,  a página mais triste da minha história mas que me fez passar de miúda a Sra. 

Como me chamou o Romão hoje, sra Ana Lúcia, Bica acrescentam-me os genes.

Foi um gosto aprender o que aprendi, que prazer é uma coisa muito diferente!