Com um sorriso no rosto


Amanhã é dia de praia. Anseio por uma daquelas manhãs de maré rasa. Por poder caminhar e tomar banho e tirar fotos e fazer de conta que o tempo não passa, que ainda sou a mesma menina que aprendeu a nadar naquela maré rasa, entre brincadeiras e vontade de enfrentar o desconhecido. 

São essas manhãs e as tardes, em que o sol se perde para lá do horizonte, enquanto eu, estendida na toalha, ouço o marulhar das ondas, que me fornecem o combustível que permite energia para enfrentar anos inteiros de uma vida completamente desarrumada, com tudo fora do lugar.

 É preciso muito combustível para vencer a inércia que muitas vezes me aborrece. É nos dias de praia que a coragem e a vontade se acumulam para enfrentar o que tiver que ser. Amanhã quero que seja um desses dias. 

Do que a vida nos tira e do que a vida nos dá

É engraçado como nos vamos modificando ao longo da vida. No outro dia falava a minha irmã da sopa de ovo que não comemos ( e ainda bem!) desde que a minha avó morreu. A dita sopa, com espinafres e ovo a boiar, é das lembranças mais asquerosas que guardo da minha infância. 

Das poucas coisas de que não gostava ( sempre fui de boa boca) a dita sopa encabeça a lista das coisas de que não tenho saudades. 

No entanto, tudo muda, e os espinafres, de legume destestado, tornou-se num legume adorado. Com muita pena minha ainda não consegui encontrar um lugar apropriado para os plantar aqui no quintal. Embora nasçam, ficam tão enfezadinhos que não dão nem para sonhar com um esparregado – mal a mal uma sopita com cheiro de espinafres. 

Já as beldoregas no meu quintal, são mato. Não sou fã de açorda de beldoregas, mas na sopa são um espectáculo e desde que descobri que são ricas em omega 3 é deixa-las crescer. E crescem em tudo quanto é buraco até junto das flores do outro lado do quintal.

Do batatal em flor, passando pelo feijão verde, até às abóboras, melancieiras e tomateiros, há de tudo um pouco neste quintal. 

A quantidade é minima, é certo, mas o prazer que me dá andar por aqui a ver as coisas crescer é o suficiente para me manter firme nas plantações. Este ano vou experimentar a batata doce. Para ver se cresce. Sou tão teimosa que nunca desisto às primeiras. As ideias ficam em ruminaçäo, a digerir lentamente, até que encontre uma nova forma de fazer exactamente a mesma coisa e esperar os resultados. Foi assim que consegui ter, neste momento, 3 chuchus em crescimento, um batatal em flor e cenouras suficientes para fazer sopa. 

E se me dissessem, aqui à uns anos, que iria gostar tanto de plantar, provavelmente nem iria acreditar. 

Uma das coisas que me dá mais prazer é vir ao quintal apanhar as ervas aromáticas para o jantar e utilizar o que plantei para confeccionar as nossas refeições. Simples assim e tão gratificante.

 Às vezes as coisas são como são por motivos que só mais tarde viremos a compreender. E ainda bem.