Alguém viu onde é que eu estacionei a nave? Quero mudar de planeta

Depois de ler este artigo (Mulheres Portuguesas deixai hoje de trabalhar) do Delito de opinião fiquei a pensar um pouco. Nada do que lá está escrito é novidade para mim, apenas os 79 dias que dou de borla em trabalho a todos os homens deste país me surpreenderam. 

Domingo à noite. Não fui ao jogo do Rodrigo por incapacidade física de me levantar da cama. Faltei ao jogo do Afonso porque à hora de saída para Sesimbra ainda nem tinha chegado a casa: poderia ser considerada negligente aos milhares de olhos que adoram pôr defeitos nos comportamentos dos outros.

Passei o fim de semana a trabalhar durante a noite. Como eu, tantas por esse país fora são obrigadas a fazer opções entre o mau e o menos mau para conseguir manter a cabeça direita e cumprir aquele que foi o projecto que sonharam para as suas vidas. Há quem escolha a carreira, há quem opte pela família. Quem, como eu sonhou conseguir ambas as partes vive constantemente no limbo da frustração e do esforço suplementar, tantas vezes à custa da sua própria saúde sempre com muitas baixas nos sonhos e nas expectativas. 

Há sempre alturas mais combativas e outras em que a força animica fraqueja e o retiro é a única opção válida. São os meus tempos de contemplação em que peço a todos que me exijam o mínimo de esforço possível já que as forças estão esgotadas. Geralmente coincidem com trabalho nocturno que me vai deixando cada vez mais de rastos. Se fosse um telemóvel esta seria a hora do carregamento. Um mal necessário.

Muitas vezes me sinto enganada. Só que talvez, a juventude não nos dê a amplitude necessária para vermos o mundo tal como ele funciona. E o mundo funciona lento, repetindo fórmulas e respostas naturais sempre que o ser humano teima em repetir erros e más opções. 

Nos meus tempos de retiro dedico-me ao que mais gosto dentro do que me é possível, porque os sonhos, por esta altura, dividem-se entre os possíveis, os prováveis e os que eram bonitos. Leio, vejo séries, afasto-me do contacto humano em demasia e peço ajuda na manutenção da qualidade de vida dos meus filhos. Tento diminuir a quantidade de tarefas que faço porque tem que ser, porque são imprescindíveis à nossa qualidade de vida e peço a Deus que demore pouco tempo a pôr os pirulitos no lugar. 

Ser mulher não é fácil. Como eu muitas sofrem o mesmo ou pior, eu tenho a vantagem de me conhecer bem fruto de muita reflexão. Cada uma opta por se safar da melhor maneira que consegue.

Poderia dizer que ser mulher em Portugal não é fácil, mas estaria a ser injusta com tantas outras mulheres por esse mundo fora, onde nem sequer a sua vontade é respeitada. 

Agora ando a ver esta série e no meio dos meus pensamentos descubro que para além das roupas e das condições de higiene, desde aquele tempo até agora muito pouca coisa mudou, nós é que gostamos de acreditar que sim…
 https://youtu.be/fDW3XsM2q1o