Pus a cabeça de fora umas horas e não gostei do que vi, vou trabalhar porque é Agosto…

Em Agosto Portugal vai a banhos. Costumo dizer por graça que é nesta altura que o norte levanta, já que o peso das gentes no Algarve ( assumindo que o país é uma alavanca) poderia fazê-lo subir. Podia, mas não faz. Infelizmente o país não é uma alavanca e se queremos subir alguns metros na escala da boa vida temos que o fazer em conjunto, porque como fizemos até aqui não tem dado grande resultado. 

Por estas alturas, enquanto uns se banham, outros há que pedem por tudo que lhes chegue a água para salvar o pouco que ainda sobra, ou que lhes resta. Diz o nosso povo sofredor que são só desgraças. São, de facto, muitas desgraças juntas, mas se acontecem são culpa de todos ( digo eu, que, como se sabe, primo pelo inconformismo). E porquê de todos e não dos políticos ou dos bombeiros, ou do vizinho do lado ou da ira de Deus? Porque grande parte das desgraças que acontecem neste momento se devem ao facto de ninguém querer saber. 

O Siresp não funciona? Pois não, e há já algum tempo que quem trabalha frequentemente com ele sabe disso. Alguém reportou sistematicamente as avarias? Alguém deu ouvidos a esses reports? Não, não estou a falar de se vir para o Facebook gritar que: @»¥°*~§$©¥>»çibtboevjpyueyx(:—#;5271) e é tudo mau e trinta por uma linha e coiso e tal. É reportar, nos lugares certos, dentro das instituições, fazer chegar a quem deve saber e tem meios e competências para fazer os reports, ou a sinalização de avarias, ou, melhor ainda, as ocorrências serem reconhecidas e tratadas como prioridade. Alguém faz isso? Não! E não porquê? porque aqui ninguém é bufo, e quem é bufo tem o propósito de prejudicar alguém e toda a gente gosta de ficar bem vista perante o chefe e, e, e em última instância é muito mais fácil gritar em frente a um ecran do que falar serenamente com quem de direito e dizer explicitamente: olhe, isto que temos, não presta!…

Bem vindos a Portugal, meus caros, e ao grande problema que é, hoje em dia, saber gerir e distinguir o barulho dos verdadeiros problemas. Isto a propósito desta notícia da rádio Sines.

A propósito de protecção civil: quem conhece o plano de emergência da sua região? Quantas escolas, edifícios públicos, equipas de emergência já viram a fazer simulacros? Não, não estou a falar em simulacros para aparecer na televisão, estou a falar em exercícios sérios. Como é que acham que as equipas de saúde aprendem os vários suportes de vida? 

Como se diz na rfm: se calhar, vale a pena pensar nisto. 

Com um sorriso no rosto


Amanhã é dia de praia. Anseio por uma daquelas manhãs de maré rasa. Por poder caminhar e tomar banho e tirar fotos e fazer de conta que o tempo não passa, que ainda sou a mesma menina que aprendeu a nadar naquela maré rasa, entre brincadeiras e vontade de enfrentar o desconhecido. 

São essas manhãs e as tardes, em que o sol se perde para lá do horizonte, enquanto eu, estendida na toalha, ouço o marulhar das ondas, que me fornecem o combustível que permite energia para enfrentar anos inteiros de uma vida completamente desarrumada, com tudo fora do lugar.

 É preciso muito combustível para vencer a inércia que muitas vezes me aborrece. É nos dias de praia que a coragem e a vontade se acumulam para enfrentar o que tiver que ser. Amanhã quero que seja um desses dias. 

Do que a vida nos tira e do que a vida nos dá

É engraçado como nos vamos modificando ao longo da vida. No outro dia falava a minha irmã da sopa de ovo que não comemos ( e ainda bem!) desde que a minha avó morreu. A dita sopa, com espinafres e ovo a boiar, é das lembranças mais asquerosas que guardo da minha infância. 

Das poucas coisas de que não gostava ( sempre fui de boa boca) a dita sopa encabeça a lista das coisas de que não tenho saudades. 

No entanto, tudo muda, e os espinafres, de legume destestado, tornou-se num legume adorado. Com muita pena minha ainda não consegui encontrar um lugar apropriado para os plantar aqui no quintal. Embora nasçam, ficam tão enfezadinhos que não dão nem para sonhar com um esparregado – mal a mal uma sopita com cheiro de espinafres. 

Já as beldoregas no meu quintal, são mato. Não sou fã de açorda de beldoregas, mas na sopa são um espectáculo e desde que descobri que são ricas em omega 3 é deixa-las crescer. E crescem em tudo quanto é buraco até junto das flores do outro lado do quintal.

Do batatal em flor, passando pelo feijão verde, até às abóboras, melancieiras e tomateiros, há de tudo um pouco neste quintal. 

A quantidade é minima, é certo, mas o prazer que me dá andar por aqui a ver as coisas crescer é o suficiente para me manter firme nas plantações. Este ano vou experimentar a batata doce. Para ver se cresce. Sou tão teimosa que nunca desisto às primeiras. As ideias ficam em ruminaçäo, a digerir lentamente, até que encontre uma nova forma de fazer exactamente a mesma coisa e esperar os resultados. Foi assim que consegui ter, neste momento, 3 chuchus em crescimento, um batatal em flor e cenouras suficientes para fazer sopa. 

E se me dissessem, aqui à uns anos, que iria gostar tanto de plantar, provavelmente nem iria acreditar. 

Uma das coisas que me dá mais prazer é vir ao quintal apanhar as ervas aromáticas para o jantar e utilizar o que plantei para confeccionar as nossas refeições. Simples assim e tão gratificante.

 Às vezes as coisas são como são por motivos que só mais tarde viremos a compreender. E ainda bem. 

” Anda tudo a fazer pouco da gente” 

Lembro-me vezes sem conta deste sketch e quem lida no dia a dia comigo sabe que muitas vezes, a falar sozinha, remoendo as frustrações, lá se solta a frase ” está tudo doido neste país”! numa alusão muito própria a este programa (se não me engano o Sabadabadu que dava aos sábados à noite, num tempo em que os serões de fim de semana ainda eram passados em casa). Estamos a falar, portanto, de mil novecentos e oitenta e troc’ó passo. … ( uma visita rápida ao Google e descubro que foi para o ar em 1981, o que me parece irreal, mas confirmado por várias fontes – isto leva-me a confirmar que tenho mesmo uma memória prodigiosa, já que teria 4 anos nessa altura – caramba! ) 

No essencial pouco evoluímos, embora pareçam muitas as mudanças – talvez sejam, mas o essencial vai-se mantendo enraizado – pelo que quando me deparo com este tipo de coisas a vontade é logo a de soltar um…”está tudo doido, neste país”! 

Vamos por partes, para não dar lugar a mal entendidos. Não sou homofobica, aliás acho que o que cada um faz debaixo dos seus lençóis, ou lá onde seja, a mim não me incomoda nada desde que não me prejudique, mais, a capacidade técnica e profissional de cada um não pode ser posta em causa devido às suas opiniões ou orientação sexual. O que pode ser posto em causa é a forma como lida com pessoas com outras práticas ou ideias. Sendo assim chegamos a um ponto de pé de igualdade – “tu não entras no meu espaço de dança e eu não entro no teu” muito ao estilo dirty dancing – ou seja, tanto direito tem um homosexual de o ser e não ser discriminado por isso, como tem o dr Gentil Martins de achar o que quiser achar sobre a orientação sexual seja de quem for desde que não prejudique ou discrimine ninguém por isso. E é aqui que entra a parte do está tudo doido neste país. Não terá a Ordem dos médicos mais com que se preocupar do que com as opiniões do referido médico? Em que é que as suas opiniões prejudicaram algum dos seus pacientes? Há provas de que tenha tido alguma vez  praticas discriminatórias em relação a homosexuais? Não?! Então deixem o homem em paz! Sim?! Investigue-se e prove-se isso. Um ser humano, pessoa, vai muito para além daquilo que faz como profissional e tem o direito à sua opinião, mesmo que seja desalinhada com o senso comum. Ninguem é exclusivamente bom, não há gente exclusivamente má, todos temos zonas cinzentas, todos! 

A noção de democracia é exactamente esta: alinharmo-nos pela maioria não implica sermos absorvidos por ela. Não prejudicando ninguém podemos e devemos ter o direito à nossa opinião, desde que esta não prejudique terceiros. A opinião do Dr Gentil Martins, não passa disso, uma opinião, aliás alinhada com a maioria das opiniões das pessoas da sua geração. Se como médico poderia ter uma visão diferente? Poderia, claro, mas dada a sua idade e o género, assim como a sua religião, seria muito improvável que isso acontecesse. O que me parece verdadeiramente disparatado é fazer-se uma queixa à Ordem dos médicos porque o sr tem essa opinião. Querem ver que agora as ordens profissionais vão também querer suprimir o direito á livre opinião???

” Este país é um colosso, está tudo grosso, está tudo grosso” – 36 anos depois!